O Mundo. A Casa. Sempre.
A palavra ecosofia junta duas ideias antigas.
Oikos, em grego, significa casa, habitação, lugar onde a vida acontece.
Sophia significa sabedoria.
Por isso, ecosofia não é apenas uma reflexão sobre a natureza. É uma pergunta mais profunda: como habitar o mundo com sabedoria?
Durante muito tempo habituámo-nos a pensar a ecologia como um tema separado da vida quotidiana. Algo relacionado com florestas distantes, oceanos ameaçados ou espécies em risco. Mas a realidade mostra-nos algo diferente. A casa que habitamos é maior e mais complexa do que imaginamos: é feita de rios, montanhas, árvores e animais. Mas é feita também de pessoas: dos vizinhos que encontramos na rua. Das comunidades que partilham os mesmos territórios. Das diferenças culturais, religiosas e sociais que convivem no mesmo espaço comum.
Quando uma floresta desaparece, todos perdemos.
Mas quando uma comunidade é expulsa do lugar onde vive, quando a pobreza é ignorada, quando o racismo, a intolerância ou os populismos transformam o outro numa ameaça, também a casa comum se torna mais frágil.
A ecosofia, desenvolvida por pensadores como Arne Næss e Félix Guattari, parte de uma ideia simples: a ideia de que a transformação do mundo exige uma atenção simultânea à natureza, à comunidade e à forma como cada um de nós constrói a sua relação consigo próprio e com os outros.
É neste contexto que a PROSA acolhe e participa, ao longo deste ano, nas reflexões propostas pelo projeto de investigação Cinema and Ecosophy: Values, Eco Narratives and Deep Ecology*, procurando aproximar algumas destas questões do espaço público através do cinema, da conversa e da partilha de experiências.
Mais do que apresentar respostas fechadas, interessa-nos criar lugares de encontro onde possamos pensar juntos que formas de habitar o mundo permanecem possíveis.
E curiosamente, os ciclos de cinema que apresentamos neste mês parecem regressar continuamente à mesma questão: a casa.
Por vezes, essa casa é a própria paisagem e as relações frágeis que ligam seres humanos, animais e território. No ciclo dedicado ao cinema de Kelly Reichardt, encontramos personagens que atravessam espaços marcados pela precariedade, pela exaustão económica e pela lenta erosão dos vínculos humanos. Nestes filmes, a natureza nunca surge como refúgio idealizado ou exterior ao mundo social. Pelo contrário: as paisagens carregam as marcas das mesmas fragilidades que atravessam os corpos, as amizades, os afetos e as comunidades. A degradação do mundo não aparece apenas como desastre ecológico visível, mas como desgaste silencioso das formas de coexistência.
Em Malpertuis, de Harry Kümel, a casa assume a forma de um espaço mítico ameaçado pela decadência e pelo esquecimento: antigos deuses sobrevivem encerrados numa mansão em ruínas, como se a imaginação e o mito fossem ainda capazes de proteger aquilo que a modernidade insiste em abandonar. A casa transforma-se num mausoléu, mas também numa última tentativa de resistência contra a dissolução de um mundo.
Noutras situações, a casa é a cidade. Os bairros, as ruas, os cafés, os pequenos gestos quotidianos que constroem um sentimento de pertença e que hoje enfrentam transformações profundas provocadas pela turistificação e pela gentrificação. Quando uma cidade deixa de ser vivida para passar a ser consumida, algo mais do que a arquitetura se transforma. Alteram-se ritmos, memórias, relações humanas e formas de comunidade. A questão deixa de ser apenas urbana ou económica. Torna-se existencial.
Embora muito diferentes entre si, todos estes filmes parecem regressar à mesma inquietação:
O que acontece quando deixamos de cuidar daquilo que nos abriga?
Talvez a grande questão do nosso tempo não seja apenas ambiental, económica ou política.
Talvez seja, antes de tudo, uma questão de pertença.
Porque toda a destruição começa quando deixamos de reconhecer algo como parte de nós.
E toda a possibilidade de renovação começa quando voltamos a sentir que pertencemos à mesma casa: uma casa feita de lugares, de memórias, de paisagens, de diferenças, de afetos e de responsabilidades partilhadas.
Uma casa chamada mundo.
*O projeto de investigação da Universidade Nova de Lisboa CINEdeepECO - Cinema and Ecosophy: Values, Econarratives and Deep Ecology (Ref. 2024.16542.PEX) é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).

