Conversas com Cinema© apresenta:

Ciclo Luzes na Caverna XII:
”A imagem como labirinto narrativo.”
:
“MALPERTUIS”
1971 | M/13 | 2h05’ [BE\FR\DE]
De Harry Kümel

Jovens e Adultos
Com Alexandre Braga

“A imagem como labirinto narrativo”:
“MALPERTUIS” 1971 | M/13 | 2h05’ [BE\FR\DE]
De Harry Kümel

Sábado Dia 20/06 às 19h30 [Saturday 06/20 at 7:30pm]

Spoken in French | Subtitled in English

Há filmes que parecem nascer já como ruínas. Não ruínas de algo destruído, mas de algo antigo demais para continuar plenamente vivo. MALPERTUIS pertence a esse território raro do cinema europeu onde a narrativa deixa de procurar apenas contar uma história e passa a funcionar como espaço de sobrevivência de forças esquecidas. Cada rosto, cada corredor e cada sombra parecem carregar a memória de um mundo que já não encontra lugar na modernidade.

Pouco visto fora dos círculos do fantástico europeu, “MALPERTUIS” tornou-se ao longo das décadas uma obra de culto profundamente singular. Realizado por Harry Kümel após o reconhecimento internacional de “DAUGHTERS OF DARKNESS” (1971), o filme reúne nomes como Orson Welles, Michel Bouquet e Mathieu Carrière numa experiência cinematográfica que cruza expressionismo, teatro decadente, surrealismo e mitologia clássica. A própria produção tornou-se lendária pela ambição estética e pela dificuldade de adaptar o universo literário denso e fragmentado de Jean Ray (1887–1964).

Num casarão decadente perdido entre corredores, quartos fechados e presenças inquietantes, uma família aguarda a morte do patriarca Cassavius. Mas naquele espaço suspenso, onde o tempo parece já não obedecer às leis do mundo exterior, algo mais profundo se esconde: os antigos deuses da mitologia clássica vivem agora aprisionados em corpos humanos, condenados à erosão da memória, do desejo e da própria eternidade.

Realizado por Harry Kümel a partir do romance de Jean Ray, “MALPERTUIS” é uma das obras mais singulares do cinema fantástico europeu: um filme onde o horror, a fantasia, o surrealismo e a melancolia metafísica coexistem numa atmosfera hipnótica e labiríntica. Entre espelhos, velas, corredores abafados e figuras que parecem emergir de um sonho febril, o filme transforma a casa Malpertuis numa espécie de mausoléu espiritual do Ocidente — um lugar onde os mitos sobrevivem não como glória, mas como decadência.

Exibido no âmbito da rúbrica CONVERSAS COM CINEMA© e do ciclo LUZES NA CAVERNA na sua 12ª Edição, propomos uma conversa aberta após a sessão em torno da ideia “A imagem como labirinto narrativo”. Em “MALPERTUIS”, o espaço deixa de funcionar apenas como cenário e transforma-se numa estrutura mental, simbólica e quase onírica, onde cada porta, corredor ou rosto parece esconder uma outra camada da realidade. O filme desafia continuamente a orientação do espectador, dissolvendo fronteiras entre memória, mito, sonho e identidade.
Aqui, o labirinto não é apenas arquitetónico: é narrativo, psicológico e espiritual. Perder-se dentro dele talvez seja precisamente a única forma de compreender aquilo que ainda permanece oculto.

Após a projeção, propomos uma conversa aberta em torno da ideia “A imagem como labirinto narrativo.”

Que tipo de espaço é verdadeiramente Malpertuis?
Estaremos diante de uma arquitetura simbólica onde memória, mito e identidade começam lentamente a dissolver-se?

Num tempo contemporâneo marcado pela transparência imediata, pela velocidade narrativa e pela necessidade constante de explicação, “MALPERTUIS” recorda-nos algo cada vez mais raro: há imagens que não existem para orientar o espectador, mas para o perder dentro delas.
Talvez seja precisamente nesse desvio — nesse momento em que deixamos de compreender totalmente aquilo que vemos — que o cinema reencontra a sua dimensão mais inquietante.

Quando a imagem deixa de funcionar apenas como resposta e passa a operar como enigma, ela transforma-se num espaço de travessia interior.

E talvez seja isso que Harry Kümel nos propõe: entrar num filme não para encontrar um caminho claro… mas para descobrir aquilo que ainda sobrevive dentro de nós quando aceitamos atravessar o labirinto mitológico do ser.

_ENG

Lights in the Cave XII Cinema Screenings: “The image as narrative labirinth.”:
MALPERTUIS” 1971 | M/13 | 2h05’ [BE\FR\DE]
De Harry Kümel
With Alexandre Braga

There are films that seem to be born already as ruins. Not the ruins of something destroyed, but of something too ancient to remain fully alive. MALPERTUIS belongs to that rare territory of European cinema where narrative ceases merely to tell a story and instead becomes a space for the survival of forgotten forces. Every face, every corridor and every shadow appears to carry the memory of a world that no longer finds its place within modernity.

Rarely seen outside the circles of European fantastic cinema, “MALPERTUIS” has, over the decades, become a deeply singular cult work. Directed by Harry Kümel following the international success of “DAUGHTERS OF DARKNESS” (1971), the film brings together names such as Orson Welles, Michel Bouquet and Mathieu Carrière in a cinematic experience that fuses expressionism, decadent theatre, surrealism and classical mythology. The production itself became legendary for its visual ambition and for the challenge of adapting the dense and fragmented literary universe of Jean Ray (1887–1964).

In a decaying mansion lost among corridors, locked rooms and unsettling presences, a family awaits the death of the patriarch Cassavius. Yet within this suspended space, where time no longer seems to obey the laws of the outside world, something deeper lies hidden: the ancient gods of classical mythology now live imprisoned within human bodies, condemned to the erosion of memory, desire and eternity itself.

Directed by Harry Kümel and adapted from the novel by Jean Ray, “MALPERTUIS” is one of the most singular works of European fantastic cinema: a film in which horror, fantasy, surrealism and metaphysical melancholy coexist within a hypnotic and labyrinthine atmosphere. Amid mirrors, candlelight, suffocating corridors and figures that seem to emerge from a fever dream, the film transforms the house of Malpertuis into a kind of spiritual mausoleum of the West — a place where myths survive not as glory, but as decay.

Presented as part of the CONVERSAS COM CINEMA© programme and the twelfth edition of the LIGHTS WITHIN THE CAVE cycle, we invite audiences to join an open discussion after the screening around the idea “The Image as Narrative Labyrinth”. In “MALPERTUIS”, space ceases to function merely as a setting and becomes a mental, symbolic and almost oneiric structure, where every door, corridor and face appears to conceal another layer of reality. The film continually challenges the viewer’s sense of orientation, dissolving the boundaries between memory, myth, dream and identity.

Here, the labyrinth is not merely architectural: it is narrative, psychological and spiritual. To lose oneself within it may be the only way of understanding what still remains hidden.


After the screening, we invite audiences to join an open conversation around the idea of “The Image as Narrative Labyrinth”.
What kind of space is Malpertuis, really?
Are we confronting a symbolic architecture in which memory, myth and identity slowly begin to dissolve?

In a contemporary age marked by immediate transparency, narrative acceleration and the constant demand for explanation, “MALPERTUIS” reminds us of something increasingly rare: there are images that do not exist to guide the viewer, but to lose them within themselves.

Perhaps it is precisely in that deviation — in the moment when we cease to fully understand what we are seeing — that cinema rediscovers its most unsettling dimension.
When the image ceases to function merely as an answer and begins to operate as an enigma, it becomes a space of inner passage.

And perhaps this is what Harry Kümel ultimately proposes: to enter a film not in search of a clear path, but to discover what still survives within us when we accept the challenge of traversing the mythological labyrinth of being.

Alexandre iniciou seus estudos em música desde a infância, mas escolheu direcionar-se para a comunicação e o cinema ao ingressar na universidade, ainda em sua cidade natal, São Paulo (Brasil). Anos depois de lançar seu primeiro curta-metragem de ficção, mudou-se para Lisboa (Portugal), onde fundou a BASE Comunicação Audiovisual, uma agência de comunicação audiovisual, gerindo contas especializadas de diversas marcas e produtos, enquanto com ideias mais artísticas, dedicou-se ao universo do poetry film, da ficção e do drama.

Retomando também suas atividades acadêmicas, e após fazer o mestrado em Desenvolvimento de Projeto Cinematográfico com especialização em Narrativas Cinematográficas concluiu o doutoramento em Ciências da Comunicação também com especialização em Cinema na Universidade Nova de Lisboa. Hoje atua como investigador no IFILNOVA - Instituto de Filosofia da NOVA na área dos film studies e dos cultural studies. Atualmente, também é professor de Comunicação e Linguagens Audiovisuais no Instituto Politécnico de Portalegre e em uma renomada escola profissional em Lisboa. É convidado frequentemente para ser consultor de histórias que procuram o seu êxito junto do espectador cinematográfico. Seu mais recente e atual projeto, focado em promover a partilha de narrativas como um meio de autocuidado terapêutico, foi a fundação da PROSA Plataforma Cultural, um espaço aberto à comunidade com atividades que utilizam o poder transformador das artes narrativas e visuais. Lá, com a sua curadoria e com a criação de um extenso grupo de espectadores de cinema, faz-se semanalmente a exibição de ciclos de cinema, seguidos de debates e análises.

(Filmografia)

"O amor, quando sopra", 6'30'' - 1988
"Mickey", 18’  - 1992
"Buritizal", 39' - 2008
"(Ce n'est pas une) Chanson d'Amour", 09'30'' - 2009
"Fiapo", 5' - 2010
"Um Fiapo de Homem" (Remixes), 3'/7' - 2011
"Devolvendo Isabel", 11’ - 2012
"Meu Pássaro", 15’ - 2017

20 de junho, às 19h30

Mín.: 4 participantes
Máx.: 12 participantes

Horário XII Edição:

3€
0€*

*Valores para membros Prosa.

Valores: