Três homens.

Experiência ativa de escrita colaborativa, realizada por participantes do ESCREVO LOGO CRIO© entre os meses de janeiro e março de 2026.

Tomé troca as escovas

Chegava domingo. Tinha visita marcada com a Rita, como vinha sendo hábito nos últimos 4 anos. Depois do almoço, passava pelo quiosque em frente ao portão do cemitério, para lhe comprar um raminho. Algo simples, como rosas de chá, cravos, ou malmequeres. De vez em quando, optava por geribérias e, em ocasiões especiais, rosas vermelhas. Perdia alguns minutos, cada domingo, a dispor as novas flores no jarrinho, e a limpar cuidadosamente as lajes, antes de se sentar a falar baixinho com a Rita. Tinha muito que falar. Afinal, haviam ficado separados uma semana inteira. Tomé trazia-lhe novidades sobre a saúde, o trabalho, os vizinhos e fofocas, os desenlaces do fenómemo televisivo do momento. Imaginava que Rita o escutasse com paciência, embora sentisse muita falta da sua voz e da sua perspetiva. Rita nunca fora muito tagarela, mas tinha uma sabedoria sóbria que ele tinha aprendido a respeitar.

Nesse domingo, depois de arranjar as flores a seu gosto, Tomé preparava-se para remover a terra e o pó que se acumulavam em cima da campa, quando reparou que a escova que tinha trazido não era a costumeira vassourinha dedicada, mas uma escova de engraxar sapatos. Sentiu uma pontada de pânico. Uma voz dentro de si reclamou impiedosa: "Mais uma destas! Estás a ficar senil! Vais perder a memória e ficar um vegetal! Prepara-te, velho!" Nem deu por se ter começado a mover ao calhas, estar agora com o túmulo da Rita algures nas suas costas, e a avançar presentemente na direção de outros visitantes do cemitério. Não tinha ainda notado a sua presença. Acenou-lhes num cumprimento tímido e mecânico. Não registou se o tinham visto, ou acenado de volta.

Controlou-se. Deu meia volta, voltou para junto da Rita. Pediu-lhe muita desculpa. Calou-se, envergonhado. Mas recebendo na alma o seu olhar paciente, decidiu-se a contar-lhe tudo. As distrações, que se tornaram muitas. Os esquecimentos, e os problemas que arranjaram. A senha do computador do trabalho, que não soube recuperar. Os dois pares de óculos escuros que deixou em parte incerta. O cartão multibanco, que desapareceu durante dias de ansiedade, para reaparecer intacto na sua carteira. As conversas a que perdia o fio. Os quartos onde entrava sem saber para quê. Os enredos, as árvores genealógicas, a panóplia de nomes, que o faziam retroceder páginas do livro. Ocasionalmente já tinha perdido consultas médicas, exames, pelas datas confundidas. Hoje tinha aparentemente pegado na escova da caixa dos sapatos, debaixo do roupeiro, em vez da escova tumular, do chão da despensa. Ninguém saberia porquê. Contou tudo à Rita, que o escutou com a calma habitual. Sentiu-se tolo por lhe ter escondido isto. No fundo, temia já não poder voltar um dia para junto dela, tal como era. Como tinha sido. Temia perder-se algures no caminho. O que acontece às almas que se dissipam e perdem a memória? O que acontece aos fios que as prendiam ao mundo, ao passado, e às outras almas?

(Ana Mourão)


Alfredo cai num abismo

Mais uma vez ele está ali, naquele lugar onde, de longe, jamais desejaria estar, mas que agora o impede de afundar ainda mais no abismo gigante em que caiu.

A cada passo que dá, lembra-se dela, do sorriso, dos olhos profundos e vibrantes, do cheiro.

E o cheiro retorna com nitidez, um perfume intenso, amadeirado, com notas de patchouli. Ao evocá-lo, vêm também as memórias dos abraços, corpos buscando aconchego, como se o tempo quisesse suspender-se naquele instante. A mão encontrando a pele, explorando sentidos, reconhecendo texturas e relevos, como se o mundo pudesse, por um segundo, parar.

Ele sente a pele dela, branca, macia, não como imagem, mas como lembrança persistente. Um corpo repleto de marquinhas do sol, envolto em um abraço longo, silencioso, cheio de ternura e afeto. Abraços que sustentam mais do que dizem, que oferecem a certeza de que o encontro entre dois corpos que se amam e se desejam pode ser profundo, potente, mágico, transformador e quase sagrado.

Ali, ele sente que ainda pode encontrá-la. Sente-se vivo, potente, forte. Ela tinha, ou talvez ainda tenha, a capacidade de trazê-lo de volta à vida.

Apressa o passo. Caminha entre túmulos, observa as datas de morte inscritas nas lápides e pensa na fragilidade da vida.

Pergunta-se, então, tomado por um pensamento incômodo, seu grande amor partiu de forma tão abrupta, tão inesperada, teria ele, em algum momento, desejado a morte dela. Talvez sim. Em um instante de extrema ira, pode ter desejado que ela simplesmente desaparecesse de sua frente.

Agora quer voltar atrás. Quer cavar a terra, sentir as mãos e unhas tomadas por formigas, minhocas, excrementos, qualquer coisa, desde que pudesse retirá-la daquele lugar.
Deseja tê-la novamente nos braços, soprar-lhe o ar nas narinas e trazê-la de volta.
Sente-se mal. Um pouco tonto. O suor frio escorre. Precisa sentar, respirar, acalmar-se.

Ali não há cadeiras nem espaços acolhedores. Apenas lápides, terra por todos os lados, um odor forte, um vazio que se espalha por cada canto.

Ele se senta sobre um túmulo branco. Na lápide, um versículo bíblico muito bonito:

“Há tempo para todas as coisas debaixo do céu”.

Recorda-se bem da passagem, especialmente do trecho, “há tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar”.

A leitura o acalma. Faz pensar que somos afluentes de um grande rio e que, em algum momento, a correnteza poderá aproximá-lo novamente do grande amor da sua vida, e que, nesse fluxo eterno, talvez não existam barreiras verdadeiramente intransponíveis.

(Leila Matheus Medeiros)


Jorge leva crisântemos desta vez

Jorge chega sempre às quartas-feiras, pouco antes das dez. Não escolhe o dia por nenhuma razão simbólica. Traz crisântemos. Não gosta deles. São excessivos, quase teatrais. Mas resistem ao frio, ao vento e ao abandono. E isso parece-lhe adequado.

A lápide que visita já não tem nome legível. A erosão do tempo diante da morte apagou quase tudo. Restam fragmentos de letras que ninguém conseguiria reconstruir. A pedra inclina-se ligeiramente, como se cedesse ao próprio peso de um tempo.
Jorge limpa-a com um pano guardado no bolso interior do casaco. O gesto é metódico. Deposita as flores com cuidado, ajusta-as até que fiquem direitas e permanece ali, imóvel.

Ao longe, reconhece sempre movimentos semelhantes. Um homem que chega cedo. outro que parte rápido. Outro que permanece longamente curvado sobre uma sepultura mais recente. Não sabe quem são. Sabe apenas que regressam.
A repetição tranquiliza-o.

O filho de Jorge não está ali.

Está vivo. Organiza, decide, faz circular dinheiro da droga com eficiência impessoal. Há formas de comando que atravessam grades e muros. Todas as semanas, uma transferência chega à conta do pai. Regular. Impecável.
Jorge recebe.
No mesmo dia, transfere o valor integral para instituições diversas. Não é caridade. É uma tentativa de neutralização. Como se a finalidade pudesse purificar a origem.

Não purifica.
Por isso, o ritual.

Aqui, diante desta pedra anónima, Jorge ensaia outra versão do mundo. Uma versão onde o filho teve um fim compreensível. Uma morte concreta é menos violenta do que uma vida que não reconhece.
Durante alguns minutos, permite-se acreditar que ali repousa aquilo que perdeu — não um corpo, mas uma possibilidade.

Depois afasta-se sem olhar para trás.

Na semana seguinte regressará.

Mas desta vez trouxe crisântemos. Porque precisava que a ausência parecesse definitiva.

(Alexandre Braga)


Prosa Plataforma Cultural

A Prosa é uma Plataforma Cultural que desenvolve experiências educativas através do poder transformador das artes visuais e narrativas.

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