Ponto de Vista e a sua Relação com a Voz Narrativa

De
STORY AND DISCOURSE Narrative Structure in Fiction and Film by SEYMOUR CHATMAN
Pg.152-153

 

É tarefa da teoria narrativa, como de qualquer teoria, lidar com as ambiguidades e imprecisões dos termos que lhe são legados. Para compreender o conceito de voz do narrador — incluindo o caso em que essa voz está “ausente” (ou minimamente presente) — é necessário, antes de mais, distingui-lo de ponto de vista, um dos termos mais problemáticos da crítica literária. A sua polissemia deve fazer hesitar qualquer um que deseje utilizá-lo numa discussão rigorosa. Pelo menos três sentidos podem ser distinguidos no uso corrente:

(a) literal: através dos olhos de alguém (percepção);

(b) figurativo: através da visão de mundo de alguém (ideologia, sistema conceptual, Weltanschauung, etc.);

(c) transferido: a partir da posição de interesse de alguém (caracterizando o seu interesse geral, proveito, bem-estar, vantagens, etc.).

As frases seguintes ilustram estas distinções:

(a) Do ponto de vista de John, no topo da Coit Tower, o panorama da Baía de São Francisco era de cortar a respiração.

(b) John afirmou que, do seu ponto de vista, a posição de Nixon, embora elogiada pelos seus apoiantes, estava longe de ser nobre.

(c) Embora não se apercebesse disso na altura, o divórcio foi um desastre do ponto de vista de John.

Na primeira frase, “o panorama da Baía” é relatado tal como efetivamente visto por John; ele encontra-se no centro de um semicírculo visual. Chamemos a isto o seu ponto de vista perceptivo. Na segunda, não há qualquer referência à sua situação física concreta no mundo real, mas sim às suas atitudes ou ao seu aparelho conceptual, à sua forma de pensar, e à maneira como os factos e as impressões são filtrados por esse sistema. Podemos chamar a isto o seu ponto de vista conceptual.

Na terceira frase, não há qualquer referência à mente de John, nem às suas capacidades perceptivas nem conceptuais. Como John não tem consciência das consequências mencionadas, ele não está a “ver” — nem no sentido literal nem no figurado; o termo funciona aqui como simples sinónimo de “no que diz respeito a John”. Chamemos a isto o seu ponto de vista de interesse.

O que causa confusão é o facto de “ponto de vista” poder, assim, referir-se tanto a uma ação de algum tipo — perceber ou conceber — como a um estado passivo, tal como ocorre no terceiro sentido/frase.


Ora, os textos — qualquer tipo de texto, até mesmo a conversação quotidiana — podem implicar um ou qualquer combinação destes sentidos. Uma descrição simples de uma experiência ou o relato de um explorador sobre uma ilha recém-descoberta pode transmitir apenas as percepções literais do autor, mas pode igualmente implicar a sua Weltanschauung ou os seus interesses práticos. Um tratado filosófico sobre questões abstratas, por seu lado, não implica normalmente um ponto de vista perceptivo, mas pode expressar de forma bastante eloquente os interesses pessoais do autor relativamente ao tema, juntamente com a sua ideologia.

Quando nos voltamos para os textos narrativos, encontramos uma situação ainda mais complexa, pois, como vimos, já não existe uma presença única, como nos ensaios expositivos, sermões, discursos políticos, e afins, mas duas — personagem e narrador — para não falar do autor implícito. Cada uma destas instâncias pode manifestar um ou mais tipos de ponto de vista. Uma personagem pode perceber literalmente um determinado objeto ou acontecimento; e/ou esse objeto ou acontecimento pode ser apresentado em função da sua conceptualização; e/ou o seu interesse pode ser mobilizado (mesmo que a personagem não tenha consciência desse interesse).

Daqui decorre a diferença crucial entre “ponto de vista” e voz narrativa:

o ponto de vista é o lugar físico, a situação ideológica ou a orientação prática de vida em relação aos quais os acontecimentos narrativos se posicionam. A voz, pelo contrário, refere-se à fala ou a outros meios explícitos através dos quais os acontecimentos e os existentes são comunicados ao público. O ponto de vista não significa expressão; significa apenas a perspetiva a partir da qual a expressão é construída.


Prosa Plataforma Cultural

A Prosa é uma Plataforma Cultural que desenvolve experiências educativas através do poder transformador das artes visuais e narrativas.

Próximo
Próximo

MANIFESTO ESCRITA COLABORATIVA POLIFÓNICA