Estou à espera.

Poucas pessoas imaginam, mas a minha vida é esperar.
Chego a uma cidade, num país distante, e apenas tenho de fazer três coisas:
 - ir a um bar;
 - pedir sempre a mesma bebida;
   e
 - voltar a esse bar todos os dias das 17h às 21h.
Apenas isso.
Até que alguém, se senta ao meu lado, e me diz:
- essa bebida vai acabar por te fazer mal.
Percebo.
Pago.
Levanto-me.
Sigo-a.
O meu dia de trabalho começa.
São-me dadas instruções.
Orientações.
Referências.
Coordenadas.
E deito-me.
Imagino.
Projeto o dia seguinte.
Como se fosse uma pessoa normal.
Como se fosse normal.
Após a noite.
Essa coisa estranha.
Nasce o dia.
Tomo banho.
Tomo sempre banho.
Faço a barba.
Faço sempre a barba, sempre que tomo banho.
Não sei porquê.
Ainda hoje, não sei porquê.
Pago.
Com o dinheiro que me deram.
Saio.
Bebo café.
Diluído em água.
Sou simpático.
Pelo menos isso.
Ser simpático.
De manhã, com os outros, é exigível.
Para que me sinta bem.
Alinhado.
Ajustado.
Integrado.
Aceite.
Como se fosse verdade.
Como se fosse normal.
Entro.
No carro que me deram.
Conduzo, como se fosse a ultima vez.
Até um armazém.
É quase sempre num armazém.
Muitas vezes pergunto-me:
- porquê num armazém?
Não me interesso pela resposta.
Ouço-os falar.
Nunca falo.
Prefiro não falar.
Dormimos.
Acordamos.
E finalmente.
A vida,

Assume-se.

Como diferente.

Como viva.
Poucos sentem.
Poucos sentiram.
A vida.
Assim.
Na boca.
É como, se aqueles momentos, fossem únicos.
Não falamos.
Eles não falam.
Mesmo os que falam.
Já não falam.
Eu.
Contínuo calado.
A vida deles.
Será minha.
A vida deles.
Vai estar comigo.
Nas minhas mãos.
Recapitulam.
Eu.
Não ouço
Sei tudo de cor.
E coro pela vida que vivi.
Entramos.
Saímos.
E o coração bate.
De forma diferente.
As cores.
São diferentes.
Os mais novos, não sabem.
Mas eu, velho e cansado, já não ligo.
O desprendimento é o segredo.
Não sentir, é o segredo.
Não gosto de gritos.
Nem de barulho.
Gosto de ser educado.
Começa tudo.
E eu.
Estou à espera.
Será que estou sempre à espera.
E espero.
Para que tudo comece.
E penso.
Em como é bom estar vivo e esperar, até que uns putos saiam, sem gritos, porque eu detesto gritos, para os levar para um sítio seguro e anónimo, e para que eu possa, finalmente, deixar de esperar e voltar para perto daqueles de quem gosto.

(Pedro da Índia)


O Monge


Reconheço a minha natural inabilidade em atravessar fronteiras.
A mesma deve-se, em grande parte, à dificuldade que tenho em perceber o sentido de parte das perguntas que me são feitas pelas autoridades.
Como exemplo disto, menciono apenas um dia em que me propunha atravessar a fronteira terrestre entre o Panamá e a Costa Rica, que era constituída por uma ponte que atravessava um rio, e a emigração perguntou-me qual era o meu destino final.
No entanto, hoje escrevo para dizer o contrário e redimir-me por todo o mal que desejei a muitas dessas pessoas.
O que me propunha fazer agora, era apanhar um avião da Tailândia para Myanmar.
Na emissão do visto, já tinha sido solicitada a informação referente aos voos de entrada e saída do país
Percebe-se claramente o cuidado com a emigração, numa nação, diga-se, gerida por uma junta militar, para a qual ninguém quer emigrar, mas sim fugir, quando comparado com a liberdade concedida pelo governo democrático português, num país do qual parece que ninguém quer sair, com exceção dos portugueses.
Sabendo perfeitamente que tinha de ter comprado o mencionado voo, certo é, que não o fiz.
A hospedeira, que fazia o check-in, pediu-me o comprovativo do mesmo.
Naquele momento, lembrei-me de uns miúdos birmaneses, aos quais tinha comprado umas meias amarelas e dois isqueiros, numa rua em Bangkok, e que me disseram que eu, em vez de ir de avião, deveria era ir por terra, informação essa da qual sempre duvidei e que vim a saber que era inverdadeira, uma vez que as fronteiras terrestres se encontram fechadas a estrangeiros.
Disse à hospedeira que tinha comprado o voo, mas que não tinha o comprovativo.
Ela insistiu.
Lembrei-me então de um monge e, em minha defesa, mostrei-lhe um e-mail trocado com ele, em que se comprovava a minha entrada num mosteiro budista tailandês, prevista para dali a três semanas.
Ela, com alguma dificuldade, mas com um enorme sorriso, aceitou.
Quando todos os passageiros entravam para a sala de acesso à porta de embarque, e chegada a minha vez, a mesma hospedeira perguntou-me se eu tinha isqueiros na minha mochila, que tinha sido despachada no porão.
Respondi-lhe que sim.
Ela, ainda com o mesmo sorriso, disse-me que ficaria com o meu passaporte e pediu-me que eu me sentasse junto dos restantes passageiros.
Estes, preenchiam um formulário de emigração que por lapso, devido à questão do voo, não me tinha sido fornecido no check-in.
Passados uns minutos, a hospedeira, atravessou a sala de espera, dirigindo-se a mim, e pediu-me para a eu a acompanhar até à pista onde estava o avião.
Assim fiz.
Chegados lá, encontravam-se dois polícias sem farda, que me pediram gentilmente para eu abrir especificamente um dos fechos da mochila, logo aquele onde estava a roupa suja, para se comprovar a existência dos isqueiros e se proceder à sua apreensão.
Um dos isqueiros, diga-se a verdade, era bastante bonito, com uma alusão ao saudoso Che Guevara, numa época de escuridão elétrica em Cuba, motivada por uma escuridão racional de um homem, facto este que realcei aos agentes, sem que, no entanto, tivesse obtido algum resultado, ainda que com alguns sorrisos.
Assinei um documento, que não li, e regressei para junto dos passageiros.
Por fim, quando entrávamos no avião, com o habitual e último controlo de bilhetes e passaportes, a hospedeira sorriu e disse-me que, no meu caso, não era necessária a prossecução do procedimento de segurança.
Na verdade, o que ela mais queria era ver-se livre de mim e neste momento sou o único ocidental no avião a viajar para um país, com umas meias amarelas, sem saber se vou conseguir entrar, nem como é que vou sair, sem os meus isqueiros, tendo comigo ao meu lado, por coincidência, um monge e sabendo que daqui a três semanas tenho de estar num mosteiro budista na Tailândia para experienciar a minha inabilidade em ser normal.

(Pedro da Índia)

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A Prosa é uma Plataforma Cultural que desenvolve experiências educativas através do poder transformador das artes visuais e narrativas.

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