Like a Prayer (1989), de Madonna, e Lux (2025), de Rosalía: duas liturgias pop, duas emancipações femini(nas)stas, trinta e seis anos de lições sobre uma visão de Deus em metamorfose contínua.

Alexandre Nascimento Braga Teixeira
IFILNOVA (Instituto de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa)


Já sabíamos que a pop, outrora entretenimento, tem se transformado numa nova pastoral emocional capaz de deslocar o sagrado para dentro da experiência humana. Onde antes havia catedrais, há agora álbuns que oferecem novas formas de transcendência; onde havia dogma, há agora corpo, desejo e reinvenção. Eis aqui um paralelo extremamente fecundo, porque tanto Like a Prayer (1989), de Madonna como Lux (2025), de Rosalía trabalham no mesmo campo de fricção: o confronto entre espiritualidade e desejo, culpa e emancipação, dentro do imaginário cristão ocidental. A diferença é que, enquanto Madonna opera pela provocação frontal, Rosalía move-se pela reescrita simbólica e pela teologia íntima.

Madonna inaugura este desvio ao confrontar a Igreja com a força da imagem e do desejo; Rosalía continua-o ao mostrar que a espiritualidade pode florescer sem dogmas, apenas com atenção e vibração. Assim, a música pop converte-se num laboratório teológico onde se experimentam novas gramáticas do sagrado: Deus deixa de ser legislador e reaparece como campo energético, murmúrio, ritmo que pulsa no corpo contemporâneo. Entre o escândalo e o silêncio, entre o ícone queimado e a respiração recolhida, a pop torna-se a liturgia do nosso tempo. Esta deslocação do sagrado para o corpo não surge do nada: nasce de histórias individuais que, ao serem vividas, se tornam teologias encarnadas.

Nascida Madonna Louise Ciccone em 1958, é filha de uma família (muito) católica ítalo-americana, marcada pelo próprio nome, pela disciplina, pelo luto precoce e por uma relação complexa com o feminino. Madonna cresce entre o rigor religioso e o desejo de fuga. A morte da mãe, quando tinha cinco anos, torna-se no trauma matricial da sua obra: o vazio converte-se em ambição, a fé transfigura-se em performance, a cruz passa a ser tanto adorno como desafio. Em Nova Iorque, nos anos 80, encontra a linguagem que a libertará: dança, sexo, ironia, provocação. Madonna (1983), Like a Virgin (1984) e True Blue (1986) não são apenas álbuns: são declarações de guerra às estruturas que moldaram a sua infância. É assim que Madonna se ergue como corpo insurgente, mulher-mito que reescreve o sagrado com a força do escândalo.
O quarto álbum de Madonna surge num momento de ruptura espiritual profunda: Like a Prayer não é apenas uma etapa seguinte, mas a síntese incendiária de tudo o que a antecede: o trauma, a fome de liberdade, a inteligência performativa, a coragem de confrontar o poder. O disco nasce como se fosse inevitável: é a teologia pessoal de Madonna finalmente a explodir em público. Aqui, a culpa católica é exposta como objeto político e o corpo transforma-se em templo e arma; a sexualidade feminina enfrenta a moral da Igreja e converte-se em gesto feminista. A iconoclastia torna-se método: profanar para libertar, queimar símbolos para revelar o que ficou soterrado sob séculos de culpa.

Pelo outro lado, Rosalía Vila Tobella nasce em 1992, na Catalunha, numa família trabalhadora, rodeada de artesãos e de pequenas espiritualidades quotidianas — um misticismo doméstico que mais tarde impregnará a sua obra. Formada no flamenco, encontra na dor, na disciplina e no gesto ritualizado do canto uma espécie de iniciação espiritual. O reconhecimento chega com El Mal Querer (2018), onde reescreve tradições ibéricas através do feminismo contemporâneo; mais tarde, com Motomami (2022), rompe com ortodoxias e abraça a experimentação. Todo esse percurso prepara o terreno para Lux, onde Rosalía leva adiante uma busca sempre latente: curar os símbolos ibéricos sem os destruir. O flamenco ensinou-lhe o ritual do lamento; o pop ensinou-lhe a metamorfose. Lux é o lugar onde estes dois gestos se fundem: Rosalía não quer profanar — quer transfigurar.
Aqui, a culpa ibérica não é atacada; é diagnosticada. A espiritualidade é íntima, não institucional. O corpo é lugar de luz, não de pecado e há toda uma liturgia pós-católica: sacralizar o corpo para curar o trauma religioso.

Se em “Like a Prayer”, faixa-título do álbum, Madonna ergue a voz para um Deus-amante que a chama pelo nome — “When you call my name, / it’s like a little prayer / I’m down on my knees, / I wanna take you there” — num gesto que funde devoção e desejo num só sopro, é fundamental lembrar que esse gesto incendiou 1989: o Vaticano condenou o videoclipe, a Pepsi rompeu contrato com a artista, e a América conservadora viu na fusão entre erotismo e iconografia sacra uma afronta moral. Rosalía, por outro lado, desloca o eixo para dentro do corpo, para a ossatura, para a carne vibrante: “Cada vértebra revela un misterio. / Reza sobre mi columna — es un rosario. / A través de mi cuerpo ves la luz. / Hiéreme — y tragaré todo mi orgullo. / Sé que nací para divinizar. / Fuera de mí, / Dentro de mí.” Aqui, em “Divinize”, o contexto já é outro: Lux emerge num tempo em que a espiritualidade holística e as linguagens energéticas se tornaram quase consensuais, permitindo uma receção mais acolhedora para este sagrado corporal. Lux também surge como um gesto radical de comunicação num mundo irremediavelmente global: gravado e cantado em doze idiomas, o álbum não o faz com a pretensão de evocar uma habilidade pentecostal, mas antes com a vocação contemporânea de atravessar fronteiras simbólicas, culturais e afetivas. Rosalía não procura falar todas as línguas; procura ser ouvida em muitas delas. A multiplicidade linguística em Lux não é espetáculo nem virtuosismo, mas uma ética da escuta: reconhecer que o sagrado, hoje, já não se manifesta pela uniformidade da palavra, mas pela sua circulação imperfeita num mundo partilhado, híbrido e profundamente interligado. Madonna ajoelha-se perante um outro que a convoca; Rosalía ergue-se como altar, rosário e via de ascensão.
Madonna sexualiza o corpo para libertá-lo: o corpo é manifesto. Rosalía espiritualiza o corpo para salvá-lo: o corpo é rito. Ambas operam a mesma alquimia, mas em direções opostas: Madonna leva-nos do sagrado para o profano e Rosalía ergue-nos do profano para o sagrado.

Madonna trabalha a culpa como teatro: ali, a culpa é eixo e matéria — inquisição versus inconsciente, tudo coreografado, tudo exposto. Ela mostra a culpa para a desmontar, produz barulho, provoca, reabre feridas históricas de uma América que maltratou tanto Deus como as mulheres. Confronta o cristianismo revelando a sua trama moral e racial: o santo negro torna-se o ponto onde erotismo, justiça e fé se fundem num mesmo corpo insurgente. Se Like a Prayer convoca o divino pelo clamor — o órgão em fogo, o coro que explode, o corpo em transe — Lux encontra o sagrado na pausa, no murmúrio, na respiração que vibra entre a pele e o silêncio. Rosalía transforma o som numa cripta íntima onde a luz não desce: nasce.

E Rosalía enfrenta a tradição ibérica como espectro íntimo — herdeira da Inquisição, das confissões muradas, da culpa herdada que atravessa séculos. Ela revela o poder que permanece dentro, encravado na psique cultural, como um resíduo que precisa ser reconhecido para poder ser transmutado. São duas frentes da mesma batalha contra um Deus institucionalizado. Entre ambas, emerge uma nova consciência: a de que a fé é também um território político. Rosalía mergulha no novo para abordar o antigo: trabalha a culpa como herança visceral, num gesto quase antropológico — a maçã proibida, a voz que diz “privar-se é a indulgência”, o corpo dividido entre dentro e fora, a dor que se converte em delícia. Aqui, a culpa não é espetáculo: é doença histórica. Um traço de uma matriz cultural que deixou cicatrizes, mas também a capacidade de criar espaços de reinterpretação e cura.

Há aqui uma relação delicada com a narrativa de Deus para além do seu intermediário: por um lado, a visão institucional e transcendente; por outro, a visão filosófica e imanente. O Deus de Like a Prayer é ainda o Deus da Igreja — mas transformado em objeto erótico, político e racial. Madonna expõe as fissuras dessa figura moralizada, revelando o racismo estrutural, a violência contra o corpo feminino e a opressão simbólica da instituição. É com esse Deus que ela luta, dança e afronta. Em Lux, Deus já não é figura ou autoridade: é vibração, energia, interioridade. Quando Rosalía canta “Through my body you can see the light”, oferece-nos uma ontologia nova: o divino como campo sensorial, uma força que se manifesta entre a pele e o cosmos. Enquanto Madonna quer derrubar o altar, Rosalía quer reconstruí-lo por dentro.

Em Madonna, a mulher sobe ao altar para reclamar o direito de ser santa e profana ao mesmo tempo: a Maria que sangra, dança, deseja, vive. Em Lux, a figura mariana é filtrada pelo íntimo: a mulher que carrega a culpa, mas a transmuta em claridade, vibração cósmica, corpo-luz. Rosalía expõe o divino como energia imanente; Madonna expõe o divino como palco de insurgência. Ambas devolvem ao feminino o lugar de mediação espiritual que a teologia tentou disciplinar. A pop torna-se, assim, o novo ícone mariano: plural, indomável, imanente.

Como gesto artístico, temos uma iconoclastia e uma pós-iconografia: Madonna rompe símbolos; Rosalía reinscreve-os. Quando Madonna beija o santo negro, ela guerreia com a iconografia; quando Rosalía canta a maçã proibida, ela cura a iconografia por reinterpretação. Madonna grita na catedral; Rosalía murmura dentro da gruta. Ambas articulam uma espiritualidade feminina radical, mas uma age pelo escândalo e a outra pela intimidade.

Esta leitura pode ainda ser situada no campo mais amplo da reflexão contemporânea sobre pós-religião e subjetivação. Como sugere Agamben, os dispositivos religiosos não desaparecem: são “desativados” e reinscritos em novos usos — e a pop tornou-se precisamente um desses lugares de profanação produtiva, onde símbolos cristãos retornam com funções inesperadas. A performatividade juvenil, na linha de Butler, encontra aqui um terreno fértil: ao ouvir e encarnar estas músicas, adolescentes e jovens experimentam modos alternativos de ser, desafiando normas herdadas e construindo identidades sensíveis e corporais. Já Han lembra que vivemos numa época de erosão dos grandes rituais; por isso, a música pop funciona como um microespaço litúrgico, onde o corpo ainda encontra intensidade, forma e comunidade. Madonna e Rosalía operam dentro desta lógica: ambas se tornam agentes de uma nova teologia estética que reconfigura, de modo íntimo e político, o que resta do sagrado na cultura ibérica e global.

Do catolicismo como trauma ao catolicismo como fantasma metabolicamente transformado, as duas obras surgem como irmãs distantes no tempo: uma é tempestade, a outra é neblina iluminada. Juntas, revelam a trajetória de trinta e seis anos de cultura ocidental — desde a urgência de romper com o dogma até à necessidade de o ressignificar para viver sem dor. Madonna mostra o instante da explosão; Rosalía, o longo rescaldo onde os símbolos continuam a arder por dentro. Entre ambas, percebe-se que o trabalho do sagrado não termina no escândalo inicial, mas na capacidade de transformar ruína em sentido.

Like a Prayer é a fogueira que purifica. Lux é a brasa que ficou.

Ambas revelam como, na pop, as mulheres reinventam Deus para sobreviverem ao peso da culpa herdada: e, ao fazê-lo, oferecem-nos um novo mapa espiritual para interpretar o nosso próprio tempo. Entre fogueiras e brasas, entre gritos e murmúrios, entre o incêndio do excesso e o lume íntimo da cura, estas duas obras mostram que a pop não é apenas música: é o lugar onde a espiritualidade do Ocidente se reinscreve, se regenera e se recria, continuamente, no intervalo vivo entre o que fomos e o que ainda podemos ser.

Referências Bibliográficas (Consulta):

Agamben, Giorgio (2007). Profanações. Lisboa: Relógio d’Água.
Deleuze, Gilles (2015). O que é um Dispositivo? in O Mistério de Ariana. Lisboa: Nova Vega.
Butler, Judith (1993). Bodies That Matter. New York: Routledge.
Butler, Judith (2017). Problemas de Género. Lisboa: Orfeu Negro.
Han, Byung-Chul (2014). A Sociedade da Transparência. Lisboa: Relógio d’Água.
Han, Byung-Chul (2020). Do Desaparecimento dos Rituais. Lisboa: Relógio d’Água.

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A Prosa é uma Plataforma Cultural que desenvolve experiências educativas através do poder transformador das artes visuais e narrativas.

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