ALGO QUE IRROMPE
No meio das nossas vidas — em instantes de delicadeza extrema ou de violência súbita — algo irrompe.
Não se anuncia. Não pede licença. Não se deixa preparar.
Salta do acontecimento, da narrativa, do fluxo ordinário do tempo. E, nesse salto, somos arrancados da continuidade do mundo e colocados num estado de suspensão: um instante sem mediação discursiva, sem tradução imediata pela linguagem, onde aquilo que acontece parece acontecer antes de sabermos dizer o que é.
Um momento breve, mas absoluto.
E, quase sempre, uma história difícil de contar.
Quem nunca viveu isso?
Desde cedo, a filosofia e as artes tentaram nomear este tipo de experiência — não para a dominar, mas para reconhecer o seu impacto. Chamou-se catarse, sublime, lampejo, hierofania, instante privilegiado. Mais tarde, falou-se do ‘éclair de l’être’, do ‘temps mort’, de um ‘flash of being’ que atravessa o cinema e suspende a narrativa (e que é o grande inspirador do nosso ciclo de cinema com pós-conversa LUZES NA CAVERNA, que já vai na sua 8ª edição).
Não há uma origem única. Há uma constelação de tentativas de dizer o ‘indizível’.
Mas foi na literatura moderna que este momento encontrou o nome que talvez melhor o acolha: epifania.
Em James Joyce, a epifania não é clímax nem revelação moral. Não resolve nada. Não organiza o sentido. É um instante banal — um gesto, uma frase, uma luz sobre um objecto — em que o real se mostra com uma intensidade inesperada e irredutível. A narrativa não culmina: interrompe-se. O centro da experiência desloca-se da explicação para a percepção. Não se trata de compreender, mas de ser atravessado.
A epifania não confirma uma teleologia. Ela suspende-a — ou denuncia-a como construção (ou instituição) ilusória: não vem dizer “era para isto”. Vem para dizer: “é lindo! Me transforma, mesmo quando também me diz: não nos leva para lado nenhum”.
Talvez seja, porque estejamos realmente no lugar certo.
É por isso que a epifania moderna e a antiga catarse não são opostas, mas separadas por uma perda. Em ambas, somos obrigados a atravessar a experiência até ao fim. O que muda é que, na modernidade, esse fim já não garante reconciliação. Antes, atravessávamos para encontrar sentido. Agora, atravessamos porque não há saída. Porque permanecer é a única forma de honestidade.
E, ainda assim, estas epifânias — mágicas, surpreendentes, frágeis, instáveis, incontroláveis — são talvez tudo o que ainda nos liga ao natural e ao sobrenatural. Tudo o que nos dá uma intuição de ligação a algo que continuamos a chamar Deus. Não o Deus das religiões, mas um Deus imanente: aquele que aflora, inesperadamente, na experiência viva. E aquele do qual, deveríamos ser o seu mais potente instrumento através da ação e da intuição humana.
Num mundo regido pela aceleração contínua, pelo excesso de produtividade e pela exigência permanente de performance, este espaço foi sendo corroído, erodido. Não foi negação frontal, foi desgaste lento. Um Deus sem lugar, uma escuta sem tempo, uma interioridade sem pausa.
E, no entanto, algo continua a irromper.
Sem aviso. Sem função. Sem promessa.
Talvez seja isso que ainda nos salva: não a explicação — mas algo que irrompe e nos desorganiza. Que nos coloca em harmonia holística com este mundo novo, verdadeiro: não o outro que conhecemos bem, mas este, que nos faz conhecer a nós próprios cada vez mais.

