Conversas com Cinema© apresenta:
Ciclo Luzes na Caverna VIII:
”A imagem como erosão da presença.”:
“L’ECLISSE” 1962 | 2h06’ [IT/FR]
De Michelangelo Antonioni
Jovens e Adultos
Com Alexandre Braga
”A imagem como erosão da presença.”:
“L’ECLISSE” 1962 | M/17 | 2h06’ [IT/FR]
De Michelangelo Antonioni
Spoken in Italian | Subtitled in English
L’ECLISSE retira à presença a sua evidência e expõe o seu desgaste silencioso: cada rosto, cada gesto, surge como vestígio de algo que já começou a afastar-se no momento em que se mostra. Aqui, não há revelação nem redenção — há erosão. Que forma de verdade persiste quando a relação se dissolve no espaço, quando o encontro falha não por tragédia, mas por esvaziamento progressivo do sentido? Que consciência se ativa quando a imagem deixa de garantir a presença e passa a testemunhar a sua lenta retirada? Em Antonioni, o cinema não encarna o mundo — regista a fratura íntima entre estar e existir, fazendo da imagem que ainda insiste em permanecer, o lugar onde a presença se apaga.
O ciclo LUZES NA CAVERNA, outrora Pensamentos sobre uma Filosofia da Imagem, prossegue com a exibição de L’ECLISSE (1962), de Michelangelo Antonioni, uma das obras mais radicais e silenciosas do cinema moderno sobre o esvaziamento da relação humana.
Inserido na chamada trilogia da incomunicabilidade, o filme acompanha o desencontro entre Vittoria e Piero num mundo onde a arquitetura, o capital e o tempo parecem ocupar o lugar antes reservado ao vínculo e à palavra.
Aqui, o cinema já não caminha com os corpos — circunda-os.
Os personagens atravessam espaços que não os acolhem; falam, mas não se encontram; aproximam-se sem nunca coincidir. A cidade moderna — bolsas de valores, prédios geométricos, ruas desertas — não é cenário: é força ativa de dissolução. Em L’ECLISSE, a imagem não confirma a presença — corroi-a lentamente, até restar apenas o intervalo entre um gesto e outro.
Michelangelo Antonioni constrói o filme como um dispositivo de esvaziamento — narrativo, afetivo e visual — onde a relação humana não colapsa por conflito, mas por desgaste. A criação da obra parte da recusa deliberada do drama clássico: não há progressão psicológica, nem resolução, nem promessa de sentido. Há apenas intervalos. Filma-se a ausência sem dramatizá-la. Não há catástrofe, nem redenção, nem clímax: há erosão. A câmara observa o mundo continuar mesmo quando os personagens falham, como se a realidade já não precisasse deles para persistir.
O célebre plano final — sem protagonistas — consuma esse gesto: a imagem permanece, mas a presença humana tornou-se dispensável.
Do ponto de vista formal, L’ECLISSE radicaliza procedimentos já ensaiados por Michelangelo Antonioni em L’Avventura e La Notte: planos longos, encenação rarefeita, diálogo funcionalmente insuficiente e uma atenção obsessiva ao espaço arquitetónico. Roma — e, em particular, o bairro do EUR — não serve de pano de fundo, mas de estrutura dramática. As linhas geométricas, os vazios urbanos e a circulação do capital (a bolsa de valores) tornam-se forças que reconfiguram o comportamento humano, deslocando o centro da ação do sujeito para o ambiente.
Antonioni trabalhou intensamente a composição do plano, explorando a relação entre figura e fundo até ao limite da dissolução. Personagens surgem frequentemente cortados, afastados ou engolidos pelo enquadramento, como se a câmara antecipasse a sua irrelevância narrativa. Um dado revelador do processo criativo é a insistência do realizador em filmar espaços antes e depois da ação, culminando em quase sete minutos sem protagonistas — uma decisão que rompe definitivamente com a expectativa de encerramento dramático.
Em L’Eclisse, a imagem não conduz a um sentido oculto: testemunha a sua erosão. A criação do filme assenta nessa aposta rigorosa — técnica e filosófica — de que o cinema pode abandonar a função de representar o humano para revelar algo mais inquietante: a persistência do mundo quando a presença já não consegue habitá-lo. Aqui, a imagem não encarna — desgasta.
Após a projeção, propomos uma conversa aberta com o público em torno da ideia “A imagem como erosão da presença”, refletindo sobre a falência do encontro, a deslocação do humano para o espaço e a possibilidade de um cinema que, ao abdicar da promessa de sentido, nos confronta com a inquietante experiência de estar sem realmente habitar.
Em Antonioni, o cinema não revela o mundo — expõe a sua lenta indiferença ao humano.
_ENG
Lights in the Cave VIII Cinema Screenings: “The image as the erosion of presence.”:
“L’ECLISSE” 1962 | M/17 | 2h06’ [IT/FR]
Directed by Michelangelo Antonioni
With Alexandre Braga
L’ECLISSE withdraws presence from its own evidence and exposes its silent erosion: every face, every gesture appears as a trace of something that has already begun to recede at the very moment it becomes visible. Here, there is no revelation or redemption — only erosion. What kind of truth persists when relationships dissolve into space, when encounters fail not through tragedy but through the gradual emptying of meaning? What form of awareness is activated when the image no longer guarantees presence and instead bears witness to its slow withdrawal? In Antonioni, cinema does not embody the world — it records the intimate fracture between being and existing, making the image that still insists on remaining the very place where presence fades away.
Here, cinema no longer walks alongside bodies — it circles them.
The characters move through spaces that do not receive them; they speak, yet do not meet; they draw close without ever coinciding. The modern city — stock exchanges, geometric buildings, deserted streets — is not a backdrop: it is an active force of dissolution. In L’ECLISSE, the image does not confirm presence — it slowly corrodes it, until only the interval between one gesture and the next remains.
Michelangelo Antonioni constructs the film as a device of emptying — narrative, affective, and visual — in which human relationships do not collapse through conflict, but through wear. The creation of the work begins with a deliberate refusal of classical drama: there is no psychological progression, no resolution, no promise of meaning. There are only intervals. Absence is filmed without dramatization. There is no catastrophe, no redemption, no climax: there is erosion. The camera observes the world continuing even as the characters fail, as if reality no longer required them in order to persist. The celebrated final sequence — without protagonists — consummates this gesture: the image remains, but human presence has become dispensable.
From a formal perspective, L’ECLISSE radicalizes procedures already explored by Antonioni in L’Avventura and La Notte: long takes, rarefied staging, functionally insufficient dialogue, and an obsessive attention to architectural space. Rome — and particularly the EUR district — does not function as a background, but as a dramatic structure. Geometric lines, urban voids, and the circulation of capital (the stock exchange) become forces that reconfigure human behavior, shifting the center of action from the subject to the environment.
Antonioni worked intensely on shot composition, pushing the relationship between figure and ground to the point of dissolution. Characters frequently appear cropped, distanced, or swallowed by the frame, as if the camera were already anticipating their narrative irrelevance. One revealing aspect of the creative process is the director’s insistence on filming spaces before and after the action, culminating in nearly seven minutes without protagonists — a decision that definitively breaks with the expectation of dramatic closure.
In L’ECLISSE, the image does not lead toward a hidden meaning: it bears witness to its erosion. The film’s creation rests on this rigorous — technical and philosophical — wager: that cinema can abandon the task of representing the human in order to reveal something more unsettling — the persistence of the world when presence can no longer inhabit it. Here, the image does not embody — it wears away.
Alexandre iniciou seus estudos em música desde a infância, mas escolheu direcionar-se para a comunicação e o cinema ao ingressar na universidade, ainda em sua cidade natal, São Paulo (Brasil). Na época, trabalhou com produção e realização de spots publicitários. Anos depois de lançar seu primeiro curta-metragem de ficção, mudou-se para Lisboa (Portugal), onde fundou a BASE Comunicação Audiovisual, uma agência de comunicação audiovisual, gerindo contas especializadas de diversas marcas e produtos, enquanto com ideias mais artísticas, dedicou-se ao universo do poetry film, da ficção e do drama.
Retomando também suas atividades acadêmicas, e após fazer o mestrado em Desenvolvimento de Projeto Cinematográfico com especialização em Narratologia e Narrativas Cinematográficas concluiu o doutoramento em Ciências da Comunicação também com especialização em Cinema na Universidade Nova de Lisboa e atua hoje como investigador no IFILNOVA - Instituto de Filosofia da NOVA. Atualmente, também é professor de Comunicação Audiovisual em uma renomada escola profissional em Lisboa e é convidado frequentemente para ser consultor de histórias que procuram o seu êxito junto do espectador cinematográfico. Seu mais recente e atual projeto, focado em promover a partilha de narrativas como um meio de autocuidado terapêutico, foi a fundação da PROSA Plataforma Cultural, um espaço aberto à comunidade com atividades que utilizam o poder transformador das artes narrativas e visuais. Lá, com a sua curadoria e com a criação de um extenso grupo de espectadores de cinema, faz-se semanalmente a exibição de ciclos de cinema e filmes, seguidos de debates e análises.
(Filmografia)
"O amor, quando sopra", 6'30'' - 1988
"Mickey", 18’ - 1992
"Buritizal", 39' - 2008
"(Ce n'est pas une) Chanson d'Amour", 09'30'' - 2009
"Fiapo", 5' - 2010
"Um Fiapo de Homem" (Remixes), 3'/7' - 2011
"Devolvendo Isabel", 11’ - 2012
"Meu Pássaro", 15’ - 2017
16 de janeiro, às 19h30
Mín.: 4 participantes
Máx.: 12 participantes
Horário VIII Edição:
3€
0€*
*Valores para membros Prosa.
Valores:

