Nostalgia não pode ser uma estratégia.
A nostalgia é um lugar emocional.
Não é um plano, é um afeto. Remete-nos para aquilo que nos tocou, para uma experiência já vivida que hoje se apresenta como conforto. O erro começa quando confundimos esse afeto com direção. A nostalgia aquece — mas não orienta.
O futuro, paradoxalmente, também produz nostalgia.
Mas apenas depois de vivido. Aquilo que hoje recordamos com saudade foi, em tempos, presente incerto, atravessado por risco, aprendizagem e transformação. Só criamos nova nostalgia quando ousamos avançar. O passado é consequência — nunca programa.
Num tempo saturado de ruído, importa reconhecer quando a linguagem é usada com ética.
Um recente discurso do primeiro-ministro canadiano, em Davos, destacou-se pela sua construção e estrutura consciente: três atos claros — diagnóstico, planeamento e visão. Uma arquitetura clássica, herdada da tradição narrativa, onde a palavra não serve para inflamar, mas para orientar.
A linguagem exige técnica.
Comunicar exige escolhas feitas num lugar de verdade. E os dispositivos da retórica — longe de serem truques contemporâneos — estão disponíveis desde a antiguidade clássica. Anáfora, epístrofe, quiasmo: não como ornamento, mas como instrumentos de clareza, ritmo e responsabilidade. A boa prosa conduz-nos, sem manipulação, a um entendimento mais nítido do real.
E nada é mais apelativo do que isso.
O storyselling do scroll pode vender, seduzir, até orientar.
Mas a palavra pública — sobretudo a palavra política — não pode corromper mensagem, meio e público. Quando a linguagem abdica da ética, transforma-se em ruído autoritário: volume sem pensamento, nostalgia sem futuro, poder que se sobrepõe.
O discurso da verdade pública tem de ser imaculado.
E, num sentido profundo, sagrado — não religioso, mas ético. Um respeito absoluto pela comunidade que escuta.
Onde a palavra perde rigor, o horizonte encolhe.
Seres de futuro não são os que apagam o passado.
São os que sabem usá-lo sem ficarem presos nele.
Somos seres de futuro. Quer queiramos ou não.
A nostalgia pode ser memória.
Nunca estratégia.
E este futuro… exige linguagem, visão e responsabilidade.
_ENG
Nostalgia cannot be a strategy.
Nostalgia is an emotional place.
It is not a plan, it is an affect. It refers us to what once touched us, to a lived experience that now presents itself as comfort. The mistake begins when we confuse that affect with direction. Nostalgia warms — but it does not guide.
Paradoxically, the future also produces nostalgia.
But only after it has been lived. What we now remember with longing was once an uncertain present, crossed by risk, learning, and transformation. We only create new nostalgia when we dare to move forward. The past is a consequence — never a programme.
In a time saturated with noise, it is crucial to recognise when language is used ethically.
A recent speech by the Canadian Prime Minister, em Davos, stood out for its conscious construction and structure: three clear acts — diagnosis, planning, and vision. A classical architecture, inherited from narrative tradition, in which words do not serve to inflame, but to orient.
Language demands technique.
Communication demands choices made from a place of truth. And rhetorical devices — far from being contemporary tricks — have been available since classical antiquity. Anaphora, epistrophe, chiasmus: not as ornament, but as instruments of clarity, rhythm, and responsibility. Good prose leads us, without manipulation, toward a sharper understanding of reality.
And nothing is more compelling than that.
The storyselling of the scroll can sell, seduce, even orient.
But public language — especially political language — cannot corrupt message, medium, and audience. When language abdicates ethics, it turns into authoritarian noise: volume without thought, nostalgia without a future, power imposed from above.
The discourse of public truth must be immaculate.
And, in a profound sense, sacred — not religious, but ethical. An absolute respect for the community that listens. Where words lose rigour, the horizon contracts.
Beings of the future are not those who erase the past.
They are those who know how to use it without becoming trapped by it.
We are beings of the future. Whether we like it or not.
Nostalgia may be memory.
Never strategy.
And that future… demands language, vision, and responsibility.

