Metalepse + Focalização Temporal
a) Conte-nos usando a metalepse e o passado (tempo verbal):
Como será o meu próximo dia de amanhã?
(8’ | 18 linhas)
b) Conte-nos usando os mesmos acontecimentos descritos no exercício (a):
Como tem sido este dia?
Sabendo que sou o narrador e, ao mesmo tempo, uma entidade invisível que o acompanha em cada detalhe descrito?
Este texto está, portanto, sendo escrito no dia de amanhã (que é hoje) com o presente como tempo verbal.
(10’ | 20 linhas)
a)
Acordara antes do sol, como se o dia o tivesse chamado pelo nome a partir de dentro.
Já sabia, naquele passado recente que ainda não tinha acontecido, que iria à floresta.
Escrevera a decisão na véspera.
Queimou com folhas secas, sem tom incendiário.
Mas agora, quando chegar o momento deste dia, recordava-a como quem imagina algo que quando está por acontecer, faz-nos vibrar por dentro.
Caminhara entre árvores altas, consciente de que uma voz o narrava enquanto ele avançava.
Era eu — ou era outro — quem observava os passos, quem decidia onde a frase devia parar. Qual o caminho.
Sentira o mundo afastar-se, não por fuga, mas por esta suspensão cuidadosamente ensaiada.
Tirou do bolso pequenos papéis, escritos por uma mão que parecia sua e talvez não fosse.
Neles, estavam ações mínimas, quase ridículas, mas essenciais para sobreviver àquele dia seguinte.
Lera-as em silêncio, sabendo que a leitura já fazia parte do ritual que faria, naquele amanhã coberto por um vapor de estranheza.
Como sei disso? Ainda estará por acontecer.
Acendera o fogo com a calma de quem já tinha queimado isto antes, noutra versão, noutro tempo.
As palavras tornaram-se cinzas, e eu descrevia o gesto ao mesmo tempo que ele o cumprirá.
Deixara as cinzas nas árvores mais altas, como se o futuro precisasse de ser devolvido ao alcance do céu, em busca de horizontes, caminhos.
Quando regressara, trazia menos mundo consigo e mais espaço por dentro.
O dia tinha acontecido exatamente como estava a ser contado. Talvez diferente do que havia sido planeado.
E só então percebera: amanhã já era memória enquanto eu abria as palavras na folha branca e as escrevia.
b)
Acompanho-te desde o primeiro gesto de luz deste dia, embora não me vejas.
Vejo-te ergueres-te antes do sol, como se algo te puxasse silenciosamente para fora desta noite.
Trazes no corpo a vibração do que já sabes que vai acontecer, mas que só a partir de agora se cumpre.
Caminhas. Em transe. Pela floresta.
Sigo-te a meio passo, habitando as margens do teu olhar.
As árvores altas são como a resposta das tuas dúvidas: recebem-te com a mesma solenidade com que acolhem quem entra num templo.
Escuto os teus pensamentos como quem lê notas deixadas em post-its colados numa parede escorregadia como eu: tenho que me apressar a lê-las.
No presente deste instante, tu escreves nos pequenos pedaços de papel. Lês o ontem neste hoje.
Estou ao teu lado quando percebes que aquelas ações mínimas sustentam mais do que um dia: sustentam a respiração possível após semanas ásperas que te consumiram por dentro.
Seguras o fogo com cuidado — e vejo os teus dedos hesitarem antes de os acenderem.
Acompanho o gesto: as palavras a desfazerem-se em cinza, o fumo a desenhar linhas no ar, a vibração quase impercetível de quem devolve algo ao mundo para poder avançar.
Ah esta ação humana me proporciona tanto…
Quando depositas as cinzas nas árvores mais altas, ergo-me contigo, embora não tenhas consciência disso. Vejo a forma como o teu corpo se abre um pouco, como se o peso te abandonasse discretamente.
Sinto que este ritual te está a devolver o espaço interior que tinhas perdido.
Quase instantaneamente.
Agora, enquanto regressas, caminho com as minhas costas a tocar as tuas — não ao lado.
E escrevo contigo este dia que ainda se está a ser escrito.
Cada palavra que lançamos ao presente revela aquilo que o futuro já começou.
Alexandre Braga
08/12/2025
a)
Acordei sabendo que aquele dia já tinha sido contado antes, talvez por você, talvez por mim em outro momento…
O despertador tocou como sempre pontual e sem trazer qualquer emoção…
Me levantei com a estranha sensação de cumprir alguma coisa que ainda não devia existir…
Enquanto fazia café, pensei que alguém, em algum lugar fora dessa história, já sabia que eu o iria acontecer…
O dia seguiu como programado, situação após situação, como se alguém cuidasse para não sair do enredo previsto…
No trabalho, falei palavras que reconheci como citações de mim mesma…
Sorri em um momento exato, porque o texto assim o exigia.
Houve um pequeno desvio, um pensamento rebelde, mas foi rapidamente corrigido. No final da tarde, senti um grande cansaço, mas não do corpo, da minha previsibilidade…
Era estranho viver alguma coisa que já estava escrita no passado de um futuro…
A noite chegou pontualmente, sem atrasar qualquer segundo. Antes de dormir, percebi que aquele amanhã tinha terminado porque o narrador precisava fechar o dia…
Me deitei grata e feliz, pois sobrevivi a um tempo e lugar que não me pertenciam…
E alguém, que está lendo agora, me deu a confirmação que tudo ocorreu como previsto…
b)
Caminho por este dia sabendo que o escrevo enquanto ele acontece…
Sou o narrador, mas também a sombra que me observa para cumprir tudo que está previsto…
O despertador está programado e toca e eu já sei: tudo que está pra acontecer está acontecendo agora…
Me levanto, me sinto e me vejo levantar, acompanhada por mim mesma fora do corpo e fora da história…
Faço café e deixo até ferver, mas não por distração, mas porque o texto precisa disso, de algo de diferente, de vida real…
Trabalho, falo, sorrio, e sinto a entidade silenciosa anotar tudo com precisão...
Cada palavra dita encaixa-se como se tivesse sido ensaiada…
Quando penso em escapar, sinto a presença lembrar-me: isto também faz parte…
O cansaço surge no momento exato em que deve surgir.
Sou personagem e testemunha, ação e comentário…
O céu escurece e a noite chega, porque o parágrafo pede uma mudança…
Percebo então que este hoje só existe porque alguém está lendo agora…
E continuo, consciente, caminhando dentro desse conteúdo, dessa história, sem desfecho…
Sim e sigo sabendo que amanhã, que já é hoje, termina aqui, quando a última linha decide parar…
Leila Matheus Medeiros
12/12/2025

