MANIFESTO ESCRITA COLABORATIVA POLIFÓNICA

Escrever coletivamente é aceitar que o eu é múltiplo, em heteronomia, multiprotagonismo ou polifonia, e que nenhuma voz tem o direito de encerrar as outras.

I. Preâmbulo — por que escrever juntos sem escrever o mesmo?

Escrever em conjunto não é somar vozes nem harmonizar diferenças: É aceitar que a escrita pode tornar-se um espaço onde mundos incompatíveis coexistem sem se resolverem.

Este projeto parte de uma recusa:
a recusa da autoria soberana,
a recusa do estilo neutro,
a recusa da narrativa como território pacificado.

É persistir na presença do outro.
A escrita colaborativa, neste sentido, não procura consenso nem fusão. Procura fricção operável.
O texto não é síntese: é campo de tensões.
Cada autor escreve a partir de um lugar irredutível — e é precisamente essa irredutibilidade que sustém o mundo comum.


II. Princípio fundamental

Nenhum autor controla a totalidade do texto.
Nenhum estilo traduz o outro.
Nenhuma personagem pertence ao mundo inteiro.
A narrativa existe porque ninguém a domina.


III. Estrutura mínima do dispositivo

1. Autores e personagens

a) Participam três autores (ou mais, se o grupo o desejar).
b) Cada autor cria uma única personagem, pela qual é integralmente responsável.
c) Essa personagem não é metáfora do autor, mas território de decisão narrativa.
Cada autor escreve apenas os capítulos centrados na sua personagem.

2. Estilo como posição no mundo

a) Cada autor assume um estilo próprio, definido livremente.
b) O estilo não é negociado nem ajustado ao conjunto.
c) O mesmo estilo deve ser mantido ao longo de todo o processo.
O estilo não é ornamento: é ética, ritmo, ontologia.

3. Mundo comum

Antes do início, define-se apenas: um espaço partilhado, um tempo reconhecível, um acontecimento inicial simples. Vamos chamar isto: MOTE.
Não se definem: arcos dramáticos, finais, mensagens,temas a cumprir.
O mundo nasce do uso, não do planeamento.

IV. Regras de escrita (claras, mínimas, inegociáveis)

a) Cada autor escreve sempre no seu próprio estilo, mesmo quando descreve consequências de ações alheias.
b) Nenhum autor pode explicar ou corrigir a interioridade das personagens dos outros.
c) O outro aparece sempre como opaco.
d) Não há revisão cruzada.
e) Cada texto permanece intacto.
f) Contradições são aceites.
g) O mundo não precisa de coerência psicológica total.
h) Cada capítulo deve conter uma ação com efeito no mundo comum.
i) Mesmo o silêncio é uma decisão.

V. O que não se faz

Não se harmonizam estilos.
Não se escreve para “fechar” o outro.
Não se escreve para salvar o texto.
Não se escreve para agradar ao conjunto.
A única fidelidade exigida é ao próprio gesto de escrita.

VI. Organização do texto

Em algum momento haverá ideias consertadas e colcar-se-á elementos no plot.
A ordem final dos capítulos pode ser: cronológica, alternada, fragmentada, decidida apenas no final. A montagem não reescreve: revela.

VII. O que este dispositivo não promete

Não promete unidade.
Não promete sentido final.
Não promete conforto estético.
Não promete reconhecimento imediato.
Promete apenas isto: um texto que não poderia ter sido escrito por um só.

VIII. Postulado final

Este manifesto não é um método para produzir bons textos.
É um dispositivo para testar a escrita sob condição de alteridade real.
Se o processo gerar conflito, falha, excesso ou silêncio — está a funcionar.
Se gerar consenso rápido, algo foi neutralizado cedo demais.
Escrever juntos, aqui, não é partilhar uma voz.
É habitar o mesmo mundo sem falar a mesma língua.


Prosa Plataforma Cultural

A Prosa é uma Plataforma Cultural que desenvolve experiências educativas através do poder transformador das artes visuais e narrativas.

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