É possível ser pleno na Terceira Idade?
Algumas correções civilizacionais e uma procura da utilidade última
Talvez uma das maiores contradições das sociedades contemporâneas seja esta: nunca vivemos tanto tempo e, no entanto, continuamos a organizar a existência como se a vida socialmente significativa terminasse quando termina a vida produtiva.
Durante décadas, o indivíduo é preparado para trabalhar. Aprende a medir o seu valor através daquilo que produz, daquilo que acumula, das responsabilidades que assume e da capacidade que demonstra para responder às exigências do mundo. O trabalho ocupa progressivamente o centro da experiência adulta, enquanto o lazer, a contemplação, a curiosidade e até a criatividade são remetidos para as margens do tempo disponível: descansaremos depois. Leremos depois. Pensaremos depois. Cuidaremos de nós depois.
Um ‘depois’ que acaba por receber nome, verbo de ação: reformar-se, aposentar-se, na criação de uma instituição e metodologia administrativa que parece encaixar-se num sistema que não se incomoda com a total falta de encaixe com o ser.
Criámos, assim, uma estranha promessa civilizacional: durante o período em que o corpo e a mente dispõem de enorme capacidade de ação, sacrificamos uma parte considerável da experiência ao trabalho; em compensação, ser-nos-á concedido, no final, um período de liberdade.
O problema é que nem o ser e nem o tempo humano funcionam desta maneira.
Não podemos interromper durante quarenta ou cinquenta anos determinadas formas de relação com o mundo e esperar que elas reapareçam intactas aos sessenta, setenta ou oitenta. A curiosidade, a imaginação, a convivência precisam de ser exercitadas. A capacidade de aprender, interpretar, contemplar, inventar e participar precisa de permanecer em movimento.
Talvez devamos, portanto, começar a considerar a criatividade não apenas como talento, mas como órgão de relação com o mundo.
Um órgão que também pode atrofiar.
A sociedade produtiva preocupou-se extraordinariamente com a conservação da capacidade laboral e muito menos com a conservação da capacidade de espanto, interpretação e criação. Preparámos pessoas para desempenhar funções durante décadas sem lhes garantir que, paralelamente, continuariam a construir uma vida interior suficientemente fértil para sobreviver ao desaparecimento dessas funções.
Quando chega a reforma/aposentação, retiramos então aquilo que durante grande parte da vida funcionou como principal organizador da existência — horários, objetivos, reconhecimento, relações sociais, problemas a resolver — e esperamos que o indivíduo saiba espontaneamente inventar outra vida.
Mas muitas vezes não sabe.
E talvez a pergunta mais justa não seja: o que aconteceu a estas pessoas?
Talvez seja: o que fizemos durante cinquenta anos para prepará-las para este momento?
A velhice como desperdício político
Há ainda uma segunda contradição.
Uma pessoa que chega aos setenta anos transporta consigo décadas de observação do mundo. Conheceu diferentes formas de trabalho, crises económicas, transformações tecnológicas, conflitos familiares, mudanças políticas, relações amorosas, perdas, erros, reconciliações, doenças, nascimentos e mortes.
Viu instituições funcionarem e… falharem. Viu ideias que pareciam definitivas desaparecerem. Viu soluções apresentadas como novas regressarem com outros nomes.
Mesmo quando não possui formação académica, acumulou uma matéria extraordinariamente rara: experiência temporal.
E precisamente quando essa experiência atinge uma densidade que nenhuma formação acelerada consegue produzir, a sociedade tende a retirar essa pessoa dos lugares onde se pensa o futuro.
É um paradoxo extraordinário.
Passamos décadas a adquirir experiência para, quando finalmente a possuímos, sermos progressivamente afastados dos lugares onde ela poderia ser utilizada.
A terceira idade é então transformada sobretudo numa questão de assistência, saúde, entretenimento ligeiro e ocupação do tempo.
Como cuidar dos idosos?
Mas talvez devêssemos acrescentar uma pergunta muito mais perturbadora para sermos coerentes: o que podem os idosos ajudar-nos a compreender?
A diferença entre as duas perguntas é imensa.
Na primeira, existe um sujeito ativo — a sociedade — e um sujeito progressivamente passivo — o idoso.
Na segunda, recuperamos uma relação de reciprocidade.
A velhice deixa de ser apenas destinatária de cuidado e regressa à condição de participante na construção do mundo.
Uma sociedade que infantiliza as extremidades da vida
Existe aqui um fenómeno ainda mais profundo.
As sociedades contemporâneas aproximaram perigosamente infância e velhice não pelas suas características naturais, mas pelas formas institucionais através das quais as administram.
À criança dizemos frequentemente: ainda não podes decidir.
Ao idoso começamos progressivamente a dizer: já não precisas decidir.
Entre o ainda não e o já não, constrói-se a idade adulta produtiva.
É aí que se concentram trabalho, responsabilidade, decisão económica, cuidado familiar e participação social.
O resultado é uma arquitetura profundamente desequilibrada da existência.
O adulto encontra-se simultaneamente responsável pelos filhos, pelos pais, pela sua sobrevivência económica e pela manutenção das estruturas sociais. É justamente no momento de maior exigência profissional que lhe pedimos também a maior quantidade de trabalho invisível de cuidado.
Enquanto isso, duas enormes reservas humanas — infância e velhice — são frequentemente tratadas sobretudo como populações a proteger, educar, ocupar ou assistir.
Naturalmente, crianças e idosos possuem necessidades específicas e vulnerabilidades reais. O problema começa quando vulnerabilidade é confundida com ausência de potência.
Uma criança não é apenas alguém que ainda não sabe.
Um idoso não é apenas alguém que já não consegue.
Ambos podem ocupar lugares singulares na produção de imaginação social. Mas de maneiras profundamente diferentes: a infância possui a força das perguntas que ainda não foram domesticadas. A velhice pode possuir a força das respostas que já não precisam provar nada.
Entre ambas encontra-se o adulto produtivo, frequentemente demasiado ocupado para fazer umas ou escutar as outras.
Talvez uma sociedade verdadeiramente inteligente precisasse precisamente de reconstruir a comunicação entre estas três temporalidades.
Vita activa, vita contemplativa
A oposição entre vida ativa e vida contemplativa atravessa a história do pensamento ocidental. Mas a modernidade industrial realizou uma operação particularmente perigosa: transformou a vita activa quase exclusivamente em vida produtiva.
Agir passou progressivamente a significar produzir: produzir bens, rendimento, resultados, currículo, visibilidade, eficácia.
Até o lazer começou a obedecer à mesma lógica: é preciso aproveitar o fim de semana, conhecer lugares, consumir experiências, manter o corpo, atualizar competências.
A contemplação deixa então de ser outra forma de atividade humana e transforma-se quase numa interrupção culpada da produção.
Esta cisão precisa de ser reparada.
Porque uma sociedade que não permite aos seus adultos contemplar produzirá idosos que dificilmente saberão o que fazer quando finalmente lhes oferecer tempo.
O problema da velhice começa, portanto, muito antes da velhice: começa na educação, na organização do trabalho, naquilo que chamamos lazer.
Começa quando ensinamos alguém a construir uma carreira sem simultaneamente ensiná-lo a construir uma existência.
O CONSELHO DE EXPERIÊNCIA CÍVICA: da ficção científica à um conselho de anciãos operacional e o ato de servir a sociedade de forma ativa e premente
É neste ponto que poderia nascer uma instituição diferente.
Imaginemos-lhe, provisoriamente: um Conselho de Anciãos.
Não como homenagem simbólica à terceira idade. Não como atividade ocupacional. Não como associação recreativa.
E certamente, não como reprodução nostálgica de uma autoridade patriarcal do passado.
O Conselho de Anciãos seria antes uma instituição de pensamento: um espaço onde pessoas em idade avançada fossem convocadas não apesar da sua idade, mas precisamente pela experiência temporal que essa idade lhes permitiu acumular.
Pessoas vindas de lugares radicalmente diferentes: professores, operários, agricultores, médicos, comerciantes, artistas, engenheiros, enfermeiros, empresários, funcionários públicos, trabalhadores domésticos, investigadores, artesãos.
Porque a experiência não pertence a uma classe profissional ou social.
O que lhes seria pedido não seria que contassem simplesmente como o mundo era.
Ser-lhes-ia pedido algo muito mais exigente: pensar como o mundo poderá ser.
O Conselho receberia problemas concretos.
Habitação. Solidão. Educação. Migrações. Transformação tecnológica. Inteligência artificial. Organização das cidades. Alterações climáticas. Cuidado do outro. Relações entre gerações. Novas formas de trabalho.
E teria tempo. Para pensar, para criar soluções,alternativas.
Esta talvez seja a sua diferença fundamental em relação às instituições contemporâneas.
Enquanto governos, empresas, universidades e meios de comunicação são progressivamente submetidos à velocidade da resposta, o Conselho poderia reivindicar o direito à lentidão do discernimento.
Não lhe pediríamos decisões imediatas. Pediríamos maturação, comparação.
Mas também memória. Dúvida.
Perguntaríamos:
Já vimos algo semelhante? Que consequências teve? O que estamos a esquecer?
Que solução aparentemente eficiente poderá produzir um problema daqui a vinte anos?
O que uma sociedade obcecada pelo presente não consegue enxergar?
Não governar. Pensar.
O Conselho de Anciãos não deveria governar.
Esse ponto é essencial.
A idade não concede automaticamente sabedoria. Uma pessoa pode envelhecer sem jamais abandonar preconceitos, ressentimentos ou certezas. Não há qualquer virtude moral garantida pela passagem do tempo.
Por isso, um Conselho desta natureza não poderia basear-se simplesmente na idade: precisaria selecionar e cultivar uma determinada disposição: capacidade de escuta, curiosidade, argumentação, revisão das próprias posições e desejo de compreender um mundo que já não é exatamente aquele em que os seus membros cresceram.
O ancião de que falamos aqui não é simplesmente uma pessoa velha. É alguém capaz de transformar experiência em discernimento.
Essa transformação exige trabalho.
O Conselho seria, portanto, simultaneamente espaço de participação e espaço de formação permanente.
Os seus membros estudariam.
Receberiam investigadores.
Conversariam com jovens.
Escutariam cientistas, artistas, trabalhadores e comunidades.
Conheceriam tecnologias novas.
Seriam confrontados com aquilo que não compreendem.
E depois pensariam juntos.
Porque não se trataria de preservar o passado contra o futuro.
Tratar-se-ia precisamente de colocar a duração humana ao serviço do futuro.
Outra ideia de prosperidade
Talvez seja necessário, finalmente, rever aquilo a que chamamos prosperidade.
Uma sociedade não prospera apenas quando aumenta a produtividade dos seus cidadãos.
Prospera quando aumenta a capacidade coletiva de compreender o mundo em que vive.
Se assim for, alguém com setenta e cinco anos que dispõe de tempo, experiência, curiosidade e capacidade de reflexão não constitui uma população economicamente inativa.
Constitui capital humano de pensamento — embora talvez devamos encontrar uma expressão menos contaminada pela linguagem económica.
É uma reserva de discernimento.
E desperdiçá-la talvez seja tão irracional quanto abandonar bibliotecas inteiras porque os livros já foram lidos uma vez.
O envelhecimento populacional, apresentado frequentemente como uma das grandes ameaças económicas do século XXI, poderia então ser parcialmente reinterpretado.
Talvez não estejamos apenas perante uma sociedade com demasiados idosos.
Talvez estejamos perante uma sociedade que ainda não inventou aquilo que os seus idosos podem ser.
E esta mudança de perspetiva transforma tudo.
Porque já não se trata apenas de descobrir como financiar mais anos de vida.
Trata-se de perguntar: para que servem os anos que conseguimos acrescentar à vida humana?
Se a resposta for apenas descanso, consumo e sobrevivência, teremos realizado uma extraordinária conquista médica sem realizar a correspondente conquista civilizacional.
Vivemos mais.
Agora precisamos aprender a continuar a existir socialmente durante aquilo que conquistámos.
Talvez o Conselho de Anciãos possa começar exatamente aí.
Não como instituição destinada aos últimos anos da vida, mas como sinal de uma transformação muito maior: uma sociedade na qual trabalho, criação, cuidado e contemplação deixem finalmente de pertencer a idades diferentes.
Uma sociedade onde ninguém precise esperar pela reforma/aposentação para começar a contemplar.
Onde ninguém precise abandonar a criação porque envelheceu.
Onde a experiência não seja confundida com nostalgia.
Onde cuidar não signifique retirar do outro a possibilidade de participar.
E onde envelhecer possa significar não a lenta saída do mundo, mas uma outra forma de entrar nele.
Porque talvez uma civilização possa ser medida também por isto: não apenas por quanto tempo consegue manter os seus cidadãos vivos, mas por quanto tempo consegue mantê-los necessários uns aos outros.

