Ciclo de Cinema OS RITUAIS DO CINEMA III: o cinema é um dispositivo ritual.

Entre o gesto mínimo e a metamorfose incessante, OS RITUAIS DO CINEMA III propõe um encontro entre dois filmes que, à primeira vista, parecem habitar extremos opostos — A Dupla Vida de Véronique (1991), de Krzysztof Kieślowski, e Holy Motors (2012), de Leos Carax — mas que, na sua essência, interrogam a mesma condição: o humano como ser ritualizado, atravessado por formas visíveis e invisíveis de repetição, de encarnação e de relação com o outro.

Em Kieślowski, o ritual não se apresenta como cerimónia, mas como respiração. Véronique vive imersa numa sucessão de gestos quotidianos — caminhar, ouvir, tocar, cantar — que, acumulados, produzem uma espécie de afinação sensível ao mundo. Nada de extraordinário acontece, e, no entanto, tudo vibra. Há uma intuição que atravessa a personagem como uma memória sem origem, um saber que não se funda na experiência direta, mas numa forma de ressonância. É neste território que a alteridade se torna decisiva: a outra — invisível, inacessível, talvez inexistente — não é apenas duplicação narrativa, mas condição ontológica. Como se o sujeito só pudesse emergir plenamente na presença latente de um outro que o excede. Aqui, o ritual é discreto, quase impercetível, mas profundamente operativo: não organiza o mundo exterior, mas prepara o interior para o encontro com aquilo que não se pode nomear.

Carax, por sua vez, radicaliza o gesto. Em Holy Motors, o ritual abandona a intimidade e torna-se espetáculo fragmentado. Monsieur Oscar atravessa um dia feito de múltiplas vidas, múltiplas máscaras, múltiplas mortes e renascimentos. Cada episódio é uma encarnação completa, com regras próprias, espaços delimitados, códigos específicos — como se cada performance obedecesse a uma liturgia sem transcendência clara. Há aqui uma dimensão profundamente ritual: preparação, transformação, execução, dissolução. E, no entanto, algo escapa. Não há comunidade visível, não há público estável, não há promessa de catarse. A mimese persiste, mas o seu telos dissolve-se. Resta o gesto. Resta o corpo em ação. Resta a repetição. E talvez seja precisamente aí que o filme se torna mais inquietante: quando o humano continua a performar mesmo sem saber porquê.

Entre estes dois polos, desenha-se uma tensão que dialoga diretamente com uma questão central do pensamento contemporâneo: o ritual ainda nos funda, ou tornou-se uma forma esvaziada de repetição? Em Kieślowski, o ritual quotidiano abre o sujeito ao invisível, criando uma disponibilidade para o mistério e para a alteridade. Em Carax, o ritual aproxima-se da exaustão, de uma circulação infinita de formas que já não garantem sentido, mas apenas sobrevivência simbólica. Um trabalha a contenção, o outro o excesso. Um afina, o outro fragmenta.

E, no entanto, ambos convergem num ponto essencial: o cinema não é apenas representação de rituais — é, ele próprio, um dispositivo ritual. Entramos na sala, suspendemos o tempo, entregamo-nos a imagens que nos convocam para uma experiência partilhada, mas profundamente interior. Tal como Véronique, somos atravessados por intuições que não sabemos explicar. Tal como Oscar, habitamos, por instantes, vidas que não são nossas. O espectador torna-se, assim, participante de um processo que oscila entre a revelação e a perda, entre a construção de sentido e a sua dissipação.

Este ciclo convida-nos, portanto, a uma pergunta que permanece em aberto: o que ainda pode o ritual fazer por nós — e o que fazemos nós, hoje, com os rituais que herdámos ou reinventámos? Talvez a resposta não esteja em escolher entre silêncio e excesso, entre interioridade e performance, mas em reconhecer que, mesmo na fragmentação contemporânea, algo insiste em repetir-se. Um gesto. Um olhar. Um corpo que tenta, ainda, encontrar forma no mundo.

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A Prosa é uma Plataforma Cultural que desenvolve experiências educativas através do poder transformador das artes visuais e narrativas.

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