Conversas com Cinema© apresenta:
Ciclo Luzes na Caverna XIV:
”Como nasce uma verdade? Como mantê-la viva?”:
“HERO”
2002 | M/13 | 1h39’ [CN/HK]
De Zhang Yimou
Jovens e Adultos
Com Alexandre Braga
”Como nasce uma verdade? Como mantê-la viva?”:
“HERO” 2002 | M/13 | 1h39’ [CN/HK]
De Zhang Yimou
Sábado Dia 17/10 às 19h30 [Saturday 10/17 at 7:30pm]
Spoken in Chinese | Subtitled in English
Em Hero (2002), Zhang Yimou conta-nos uma história e, logo depois, retira-nos a segurança de acreditarmos nela. O mesmo acontecimento regressa várias vezes, transformado pela memória, pela intenção, pela imaginação e pelo desejo. As cores mudam, os gestos adquirem outros sentidos, os heróis tornam-se frágeis e os inimigos talvez deixem de o ser. A verdade não está escondida no final de um caminho à espera de ser descoberta: nasce lentamente do confronto entre diferentes maneiras de olhar.
Talvez seja precisamente aí que Hero se torna um filme sobre o próprio cinema. Porque também o cinema nunca nos entrega simplesmente o mundo: escolhe um enquadramento, uma duração, uma distância, uma cor, um movimento, um silêncio. Diante da infinidade do real, cada filme abre apenas uma janela. Mas é justamente por ser limitada que essa janela pode revelar alguma coisa. Ver tudo seria talvez não ver nada. Ver através do olhar de alguém — aceitar durante algumas horas aquela perspetiva única sobre a existência — pode transformar profundamente a nossa própria maneira de olhar.
Zhang Yimou leva esta ideia quase ao limite. Em Hero, cada versão da história possui a sua própria verdade porque possui a sua própria forma. O vermelho não nos diz o mesmo que o azul; o branco não recorda da mesma maneira que o verde. A imagem deixa de ser simples ilustração dos acontecimentos e torna-se pensamento. Antes mesmo de compreendermos racionalmente aquilo que mudou, já o sentimos através da luz, dos corpos, da música, do espaço e da cor.
E talvez seja essa uma das grandes dádivas do cinema: permitir-nos experimentar outras formas de existência sem termos de abandonar a nossa. Durante algum tempo, vemos através dos olhos de outro ser humano. Habitamos outra consciência. Experimentamos outras relações com o amor, a violência, a memória, a morte, o poder, o sacrifício. E quando regressamos ao mundo, alguma coisa pode ter mudado — não necessariamente porque encontrámos uma resposta, mas porque aprendemos a formular de outra maneira a pergunta.
É nesse instante que procuramos aquilo a que poderíamos chamar um éclair d’être: um clarão do ser. Aquele momento raro em que uma imagem, um gesto ou um silêncio ilumina subitamente uma região da nossa própria experiência. Não é uma revelação religiosa no sentido estrito, nem uma conclusão moral. É uma pequena epifania: por alguns segundos, vemos.
No final de Hero, aquilo que parecia ser uma narrativa sobre vingança tornou-se uma interrogação muito maior sobre aquilo que fazemos com a verdade quando finalmente acreditamos tê-la encontrado. Porque descobrir uma verdade talvez seja apenas o primeiro movimento. O mais difícil é decidir como viver depois dela — e o que estamos dispostos a abandonar para a manter viva.
Talvez seja também por isso que continuamos a entrar numa sala escura.
Não apenas para assistir à vida dos outros, mas para regressarmos à nossa com os olhos ligeiramente diferentes. O cinema não ilumina o caminho porque saiba para onde devemos ir. Ilumina-o porque, durante algumas horas, abre diante de nós uma janela que nunca poderíamos abrir sozinhos.
E, por vezes, basta essa única janela para que o mundo inteiro pareça diferente.
_ENG
Lights in the Cave XIV Cinema Screenings: How Is a Truth Born? How Do We Keep It Alive?
“HERO” 2002 | M/13 | 1h39’ [CN/HK]
De Zhang Yimou
With Alexandre Braga
In Hero (2002), Zhang Yimou tells us a story and then immediately withdraws the certainty that we should believe it. The same event returns several times, transformed by memory, intention, imagination and desire. Colours change, gestures acquire different meanings, heroes become fragile and enemies may cease to be enemies at all. Truth is not hidden at the end of a path, waiting to be discovered: it slowly emerges from the confrontation between different ways of seeing.
Perhaps this is precisely where Hero becomes a film about cinema itself. Cinema, too, never simply gives us the world: it chooses a frame, a duration, a distance, a colour, a movement, a silence. Faced with the infinity of reality, every film opens only one window. Yet it is precisely because that window is limited that it can reveal something. To see everything would perhaps be to see nothing. To look through someone else’s gaze — to accept, for a few hours, that singular perspective on existence — can profoundly transform the way we look at our own lives.
Zhang Yimou pushes this idea almost to its limit. In Hero, each version of the story possesses its own truth because it possesses its own form. Red does not tell us the same thing as blue; white does not remember in the same way as green. The image ceases to be a mere illustration of events and becomes thought itself. Even before we rationally understand what has changed, we already feel it through light, bodies, music, space and colour.
And perhaps this is one of cinema’s greatest gifts: it allows us to experience other forms of existence without having to abandon our own. For a while, we see through the eyes of another human being. We inhabit another consciousness. We encounter other relationships with love, violence, memory, death, power and sacrifice. And when we return to the world, something may have changed — not necessarily because we have found an answer, but because we have learnt to ask the question differently.
It is in that instant that we search for what we might call an éclair d’être: a flash of being. That rare moment when an image, a gesture or a silence suddenly illuminates a region of our own experience. It is not a religious revelation in the strict sense, nor a moral conclusion. It is a small epiphany: for a few seconds, we see.
By the end of Hero, what seemed to be a story about revenge has become a far greater question about what we do with truth once we finally believe we have found it. Because discovering a truth may be only the first movement. The more difficult task is deciding how to live after it — and what we are willing to relinquish in order to keep it alive.
Perhaps this is also why we continue to enter a darkened cinema.
Not simply to watch the lives of others, but to return to our own with slightly different eyes. Cinema does not light our path because it knows where we should go. It illuminates it because, for a few hours, it opens before us a window we could never have opened alone.
And sometimes, that single window is enough to make the whole world look different.
Alexandre iniciou seus estudos em música desde a infância, mas escolheu direcionar-se para a comunicação e o cinema ao ingressar na universidade, ainda em sua cidade natal, São Paulo (Brasil). Anos depois de lançar seu primeiro curta-metragem de ficção, mudou-se para Lisboa (Portugal), onde fundou a BASE Comunicação Audiovisual, uma agência de comunicação audiovisual, gerindo contas especializadas de diversas marcas e produtos, enquanto com ideias mais artísticas, dedicou-se ao universo do poetry film, da ficção e do drama.
Retomando também suas atividades acadêmicas, e após fazer o mestrado em Desenvolvimento de Projeto Cinematográfico com especialização em Narrativas Cinematográficas concluiu o doutoramento em Ciências da Comunicação também com especialização em Cinema na Universidade Nova de Lisboa. Hoje atua como investigador no IFILNOVA - Instituto de Filosofia da NOVA na área dos film studies e dos cultural studies. Atualmente, também é professor de Comunicação e Linguagens Audiovisuais no Instituto Politécnico de Portalegre e em uma renomada escola profissional em Lisboa. É convidado frequentemente para ser consultor de histórias que procuram o seu êxito junto do espectador cinematográfico. Seu mais recente e atual projeto, focado em promover a partilha de narrativas como um meio de autocuidado terapêutico, foi a fundação da PROSA Plataforma Cultural, um espaço aberto à comunidade com atividades que utilizam o poder transformador das artes narrativas e visuais. Lá, com a sua curadoria e com a criação de um extenso grupo de espectadores de cinema, faz-se semanalmente a exibição de ciclos de cinema, seguidos de debates e análises.
(Filmografia)
"O amor, quando sopra", 6'30'' - 1988
"Mickey", 18’ - 1992
"Buritizal", 39' - 2008
"(Ce n'est pas une) Chanson d'Amour", 09'30'' - 2009
"Fiapo", 5' - 2010
"Um Fiapo de Homem" (Remixes), 3'/7' - 2011
"Devolvendo Isabel", 11’ - 2012
"Meu Pássaro", 15’ - 2017
17 de outubro, às 19h30
Mín.: 4 participantes
Máx.: 12 participantes
Horário XII Edição:
3€
0€*
*Valores para membros Prosa.Valores:

