Conversas com Cinema© PROSA

Ciclo QUEM SOMOS? QUEM FOMOS? (QUANDO CONTAMOS HISTÓRIAS)

[WHO ARE WE? WHO WERE WE? (WHEN WE COUNT STORIES) Cinema Screenings]
Curadoria de Alexandre Braga

‍ ‍Há uma pergunta que acompanha toda a existência humana: quem somos? Mas talvez exista outra, ainda mais decisiva: quem fomos para nos tornarmos aquilo que hoje somos?

Vivemos rodeados de histórias. Contamo-las aos outros, contamos versões de nós próprios e herdamos narrativas que começaram muito antes do nosso nascimento. A memória nunca é um simples arquivo de acontecimentos; é um território vivo onde recordação, imaginação, silêncio e esquecimento coexistem. É através dessas histórias que damos sentido ao passado e procuramos compreender o presente.

O documentário ocupa um lugar singular neste processo. Alguns dos seus autores compreenderam que filmar uma vida não consiste apenas em preservar factos ou testemunhos, mas em realizar um gesto profundamente ético: oferecer tempo, escuta e dignidade à experiência de outro ser humano. Quando alguém é verdadeiramente ouvido, acontece algo raro: a sua existência deixa de ser apenas vivida para passar também a ser compreendida.

Talvez por isso existam histórias que precisam de ser contadas para que uma vida possa continuar. Segredos familiares, episódios nunca verbalizados, escolhas interrompidas ou pequenos gestos aparentemente insignificantes permanecem, por vezes, durante décadas a moldar silenciosamente quem somos. Contá-los não modifica o passado, mas transforma radicalmente a relação que estabelecemos com ele. Há pessoas que apenas conseguem desbloquear a própria vida quando finalmente encontram uma narrativa capaz de integrar aquilo que permanecia disperso ou escondido.

É precisamente este poder transformador da narrativa que une os dois filmes deste ciclo:

Em Man on Wire (2008), James Marsh parte de um acontecimento que parecia destinado a sobreviver apenas como uma curiosidade histórica: a travessia clandestina de Philippe Petit entre as Torres Gémeas do World Trade Center, em 1974. Contudo, o filme rapidamente revela que nunca esteve verdadeiramente interessado no recorde ou no espetáculo. Através de entrevistas, fotografias, arquivos e reconstruções cuidadosamente encenadas, Marsh transforma essa caminhada impossível numa meditação sobre a imaginação humana, a amizade, a persistência e a necessidade profundamente humana de realizar gestos que parecem não servir para nada — exceto recordar-nos de que a liberdade também pode assumir a forma da beleza. O documentário preserva um instante efémero e devolve-lhe uma dimensão quase mítica, revelando como certos acontecimentos sobrevivem porque continuam a dar sentido às vidas que os testemunharam.

Se Man on Wire pergunta como um acontecimento extraordinário pode tornar-se memória coletiva, Stories We Tell (2012) desloca o olhar para o interior de uma família e interroga a própria natureza da verdade. Sarah Polley realiza aqui um dos gestos mais corajosos do documentário contemporâneo: transforma a investigação da sua própria história familiar num exercício público de vulnerabilidade. Convoca irmãos, pai, amigos e antigos companheiros da mãe, confronta versões contraditórias, expõe dúvidas sem procurar resolvê-las definitivamente e revela, com rara honestidade, que nenhuma memória pertence inteiramente a uma única pessoa. O filme torna-se ainda mais fascinante porque desmonta continuamente os próprios mecanismos do documentário, misturando imagens de arquivo com reconstruções cuidadosamente filmadas, obrigando o espectador a interrogar aquilo que acredita ser verdadeiro. A coragem de Polley não reside apenas em revelar um segredo familiar, mas em aceitar que amar alguém implica reconhecer que nunca possuiremos uma versão definitiva da sua história — nem da nossa.

Entre a aventura aparentemente impossível de Philippe Petit e a delicada arqueologia afetiva de Sarah Polley existe uma mesma convicção: cada vida merece ser narrada. Não porque todas sejam extraordinárias, mas porque cada existência transporta uma forma única de habitar o mundo.
E porque talvez ouvir profundamente a história de outra pessoa seja uma das formas mais antigas de cuidado. E porque, por vezes, é precisamente na vida dos outros que encontramos as palavras que nos faltavam para finalmente compreender a nossa.

(Curadoria de Alexandre Braga)


_ENG

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There is a question that accompanies every human life: who are we? Yet perhaps there is another, even more fundamental: who were we before becoming who we are today?

We live surrounded by stories. We tell them to others, we tell versions of ourselves, and we inherit narratives that began long before we were born. Memory is never a simple archive of events; it is a living landscape where remembrance, imagination, silence and forgetting coexist. It is through stories that we make sense of the past and attempt to understand the present.

Documentary cinema occupies a unique place within this process. Some filmmakers have understood that filming a life is not merely about preserving facts or testimonies, but about performing a profoundly ethical act: offering time, attention and dignity to another person's experience. When someone is truly listened to, something remarkable happens: their existence is no longer simply lived—it also becomes understood.

Perhaps this is why some stories need to be told before a life can move forward. Family secrets, unspoken episodes, interrupted choices or seemingly insignificant moments can remain hidden for decades, quietly shaping who we become. Telling these stories does not change the past, but it can transform our relationship with it. Many people only begin to move beyond certain inner impasses once they discover a narrative capable of giving form and meaning to what had long remained fragmented or concealed.

It is precisely this transformative power of storytelling that brings together the two films in this programme.

In Man on Wire (2008), James Marsh begins with an event that could easily have survived merely as an extraordinary historical anecdote: Philippe Petit's clandestine tightrope walk between the Twin Towers of the World Trade Center in 1974. Yet the film quickly reveals that it is never truly about the feat itself. Through interviews, photographs, archival footage and carefully crafted reconstructions, Marsh transforms this impossible crossing into a meditation on imagination, friendship, perseverance and the profoundly human desire to undertake acts that appear to serve no practical purpose—except reminding us that freedom can also take the form of beauty. The documentary preserves an ephemeral moment and restores to it an almost mythical dimension, showing how certain events endure because they continue to give meaning to the lives of those who witnessed them.

If Man on Wire asks how an extraordinary event becomes collective memory, Stories We Tell (2012) turns inward, exploring the very nature of truth within a family. Here, Sarah Polley undertakes one of the most courageous gestures in contemporary documentary cinema by transforming the investigation of her own family history into a public act of vulnerability. She brings together siblings, her father, friends and people who knew her late mother, confronting conflicting memories without attempting to resolve them into a single definitive version. In doing so, she reveals—with extraordinary honesty—that no memory ever belongs entirely to one person alone. The film becomes even more compelling as it constantly exposes its own documentary mechanisms, blending archival footage with meticulously staged reconstructions and inviting the viewer to question what they believe to be authentic. Polley's courage lies not only in revealing a deeply personal family secret, but in accepting that loving someone also means acknowledging that we can never fully possess the truth of their story—or of our own.

Between Philippe Petit's seemingly impossible walk and Sarah Polley's delicate excavation of family memory lies a shared conviction: every life deserves to be told. Not because every life is extraordinary, but because every human existence embodies a unique way of inhabiting the world.
For perhaps listening deeply to another person's story remains one of humanity's oldest forms of care. And because, sometimes, it is through the lives of others that we finally discover the words we needed to understand our own.

(Curatorship by Alexandre Braga)


“MAN ON WIRE” 2008 | M/12 | 1h34’ [UK\US] (Homem no Arame - PT)
De James Marsh
Sexta Dia 10/07 às 19h30 [Friday 07/10 at 7:30pm]

Em 1974, o funambulista Philippe Petit realizou um feito impossível: atravessar num cabo de aço o espaço entre as torres gémeas do World Trade Center. O documentário reconstrói essa ação como um ato de poesia e rebelião.
In 1974, tightrope walker Philippe Petit performed the impossible: walking on a wire between the Twin Towers of the World Trade Center. The documentary reconstructs the act as a gesture of poetry and rebellion.

Spoken in English | Subtitled in Portuguese


“STORIES WE TELL” 2012 | 1h49’ [CA] (Histórias que Contamos - PT)
De Sarah Polley
Sábado Dia 11/07 às 19h30 [Saturday 07/11 at 7:30pm]

A realizadora Sarah Polley investiga um segredo familiar através de entrevistas, arquivos e reconstruções cinematográficas. O filme revela como a memória e a narrativa moldam a verdade.
Director Sarah Polley investigates a family secret through interviews, archives, and cinematic reconstructions. The film reveals how memory and storytelling shape truth.

Spoken in English | Subtitled in Portuguese


Todos os filmes do Cinema PROSA serão exibidos em pixel iluminado (ecrã QLED 65’’) em sala condicionada ao máximo de 24 espectadores.
Preçário

Membros: Entrada livre.
Não-membros: Donativo sugerido de 3€

All Cinema PROSA films will be shown on an illuminated pixel (65’’ QLED screen) in a room with a maximum capacity of 24 spectators.
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Members: Free Entry.
Non-members: Suggested donation of 3€.

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