Conversas com Cinema© PROSA
Ciclo
KEN RUSSELL
[KEN RUSSELL” Cinema Screenings]
(Curadoria de Alexandre Braga)
Há cineastas que procuram compreender o mundo através daquilo que vemos. Outros parecem movidos pela necessidade de tornar visível aquilo que permanece escondido: o desejo, a fé, o medo, a memória, os territórios obscuros da consciência. Ken Russell pertence a esta segunda linhagem. Provocador, excessivo e profundamente irreverente, construiu uma linguagem cinematográfica onde a imagem não se limita a representar a realidade, mas procura atravessá-la, como se por detrás da superfície das coisas existisse uma dimensão mais profunda, inquietante e, por vezes, insuportável.
No cinema de Russell, o corpo torna-se o lugar privilegiado dessa revelação. É nele que se inscrevem as tensões entre o sagrado e o profano, a razão e o instinto, a repressão e o desejo. A sua estética, frequentemente associada ao grotesco, ao barroco e à transgressão, não procura apenas provocar o espectador: procura confrontá-lo com aquilo que a cultura, a religião e a própria consciência aprenderam a esconder. O excesso transforma-se, assim, numa forma de conhecimento, e a imagem cinematográfica numa experiência que desafia os limites da perceção.
Em The Devils (1971), inspirado em acontecimentos históricos ocorridos na França do século XVII, Russell mergulha num universo onde a religião, a sexualidade e o poder político se entrelaçam de forma devastadora. A perseguição ao padre Urbain Grandier revela uma sociedade que transforma os seus desejos reprimidos em manifestações demoníacas e utiliza a fé como instrumento de dominação. Mas, para além da violência e da controvérsia que acompanharam o filme, emerge uma questão profundamente humana: o que acontece quando deixamos de reconhecer os nossos próprios fantasmas e começamos a projetá-los sobre os outros?
Nove anos depois, em Altered States (1980), Russell desloca essa inquietação do espaço coletivo para o interior da consciência. Através das experiências de um cientista determinado a explorar os limites da perceção humana, o filme transforma-se numa vertiginosa viagem às origens da existência. Entre a ciência, o misticismo e a alucinação, a procura de uma verdade primordial conduz-nos a um território onde a identidade, o corpo e a própria noção de humanidade parecem dissolver-se. Se em The Devils o invisível é convocado para justificar o exercício do poder, em Altered States torna-se o objeto de uma procura radical pelo conhecimento de si.
Separados por quase uma década, estes dois filmes revelam uma extraordinária coerência no universo de Ken Russell: a convicção de que aquilo que não conseguimos ver pode ser precisamente aquilo que mais profundamente nos constitui.
Neste ciclo de CONVERSAS COM CINEMA©, a PROSA convida-vos a descobrir um realizador que fez da transgressão uma linguagem e do cinema um instrumento de exploração dos territórios mais inquietantes da experiência humana. Porque talvez seja essa uma das possibilidades mais extraordinárias da imagem cinematográfica: não apenas mostrar-nos o mundo que conhecemos, mas permitir-nos entrever aquilo que, em nós e para além de nós, permanece invisível.
(Curadoria de Alexandre Braga)
_ENG
Some filmmakers seek to understand the world through what we can see. Others seem driven by the need to make visible what remains hidden: desire, faith, fear, memory, and the obscure territories of consciousness. Ken Russell belongs to this second tradition. Provocative, extravagant, and profoundly irreverent, he developed a cinematic language in which the image does not merely represent reality but seeks to penetrate it, as though beneath the surface of things there existed a deeper, unsettling, and sometimes unbearable dimension.
In Russell's cinema, the body becomes the privileged site of this revelation. It is where tensions between the sacred and the profane, reason and instinct, repression and desire are inscribed. His aesthetic, frequently associated with the grotesque, the baroque, and transgression, does not merely seek to provoke the spectator: it confronts us with everything that culture, religion, and consciousness itself have learned to conceal. Excess thus becomes a form of knowledge, and the cinematic image an experience that challenges the limits of perception.
In The Devils (1971), inspired by historical events in seventeenth-century France, Russell plunges into a world where religion, sexuality, and political power intertwine with devastating consequences. The persecution of Father Urbain Grandier reveals a society that transforms its repressed desires into demonic manifestations and uses faith as an instrument of domination. Yet beyond the violence and controversy that surrounded the film, a profoundly human question emerges: what happens when we cease to recognise our own ghosts and begin projecting them onto others?
Nine years later, in Altered States (1980), Russell shifts this unease from the collective sphere to the depths of individual consciousness. Through the experiments of a scientist determined to explore the limits of human perception, the film becomes a dizzying journey into the origins of existence. Somewhere between science, mysticism, and hallucination, the search for a primordial truth leads us into a territory where identity, the body, and the very notion of humanity seem to dissolve. If, in The Devils, the invisible is invoked to justify the exercise of power, in Altered States, it becomes the object of a radical quest for self-knowledge.
Separated by almost a decade, these two films reveal an extraordinary coherence within Ken Russell's cinematic universe: the conviction that what we cannot see may be precisely what constitutes us most profoundly.
In this edition of CONVERSAS COM CINEMA©, PROSA invites you to discover a filmmaker who turned transgression into a language and cinema into an instrument for exploring the most unsettling territories of human experience. For perhaps this is one of the most extraordinary possibilities of the cinematic image: not merely to show us the world we know, but to allow us to glimpse what, within us and beyond us, remains invisible.
(Curatorship by Alexandre Braga)
“THE DEVILS” 1971 | M/16 | 1h51’ [UK] (Os Demónios - PT)
De Ken Russell
Sexta Dia 06/11 às 19h30 [Friday 11/06 at 7:30pm]
Na França do século XVII, o padre Urbain Grandier enfrenta o poderoso Cardeal Richelieu ao defender a cidade de Loudun. Quando uma freira consumida pela repressão sexual o acusa de feitiçaria, desencadeia-se uma perseguição onde o fanatismo religioso e o poder político se confundem.
In 17th-century France, Father Urbain Grandier's protection of the city of Loudun from the corrupt Cardinal Richelieu is undermined by a sexually repressed nun's accusation of witchcraft.
Spoken in English | Subtitled in Portuguese
“ALTERED STATES” 1980 | M/14 | 1h43’ [US] (Estados Alterados - PT)
De Ken Russell
Sábado Dia 07/11 às 19h30 [Saturday 11/07 at 7:30pm]
Um psicofisiologista submete-se a experiências com substâncias psicadélicas e a uma câmara de privação sensorial, desencadeando visões que acredita corresponderem a memórias inscritas na própria origem da espécie humana.
A psycho-physiologist experiments with drugs and a sensory-deprivation tank and has visions he believes are genetic memories.
Spoken in English | Subtitled in Portuguese
Todos os filmes do Cinema PROSA serão exibidos em pixel iluminado (ecrã QLED 65’’) em sala condicionada ao máximo de 24 espectadores.
Preçário
Membros: Entrada livre.
Não-membros: Donativo sugerido de 3€
All Cinema PROSA films will be shown on an illuminated pixel (65’’ QLED screen) in a room with a maximum capacity of 24 spectators.
Prices
Members: Free Entry.
Non-members: Suggested donation of 3€.
Trailers:

